2.4.15

Histórias Íntimas

Por Jairo Alves

Mary através de uma linguagem simples trata da história da intimidade dos brasileiros desde os tempos do Brasil colônia até os dias atuais. O primeiro capítulo, “Da Colônia ao Império”, trata como a noção de privacidade foi se construindo no decorrer dos três primeiros séculos de colonização, entre o século XVI e XVIII.
            Segundo a autora os primeiros anos de colonização foram muito difíceis, os colonos que vinham da metrópole viviam em condições muito extremas, faltava de tudo, as habitações eram rústicas, com casas de meia parede com “divisão interna que pouco ensejava a intimidade” e a falta de higiene era algo a ser considerado na hora da intimidade, entre o casal, pois até sabão era difícil, no começo da colonização.


            O mais importante nesse primeiro capítulo é compreendermos que a noção de intimidade entre os séculos XVI e XVIII são diferentes daquela nossa no inicio do século XXI, e que é um conceito que vai se modificando conforme as alterações sociais.    
            Vejamos que quando os europeus chegaram na América a primeira idéia que tiveram é que estavam no paraíso terrestre e que os índios eram inocentes e puros, surgindo o “mito do bom selvagem”, nossas índias eram consideradas criaturas inocentes, sua nudez de corpo depilado contrapunha a “penugem cabeluda” símbolo máximo do erotismo feminino europeu. Tanto que as mulheres consideradas “decentes” raspavam ou depilavam as partes intimas, “frisar, pentear ou cachear os pelos púbicos” eram uma característica das prostitutas. Nesse período a única função do órgão reprodutor feminino era a procriação, e nunca de dá prazer à mulher. p.32 


Para percebermos como a noção de intimidade vai se construindo ao longo dos séculos, notemos que em Portugal do ano de 1540, acreditava-se que a “paixão física abreviava a vida do homem” e que a relação sexual emburrecia”. Recomendava-se até “Dormir, só de lado, nunca de costas, porque a concentração de calor na região lombar desenvolve excitabilidade aos órgãos sexuais”. Tudo era muito vigiado e fiscalizado pela Igreja. p.31  

Mas por que era negado a mulher sentir prazer?
Sabemos que deste a Idade Média, havia a crença, pregada pelo cristianismo, de que a mulher era a possuidora do pecado original, “herdeira direta de Eva, foi responsável pela expulsão do paraíso e pela queda dos homens. Para pagar seu pecado, só dando a luz entre dores”. p.35
Segundo as crenças medievais a mulher não tinha o direito de sentir prazer, era identificada como uma das formas do mal na terra, sendo o corpo feminino impuro. Tanto que, segundo a Igreja, quando do Julgamento Final ressuscitariam como homens. p.35

A intimidade no Brasil colônia foi cercado por normas de comportamento imposta pela Igreja Católica, no entanto, a grande distância da Metrópole e a escassez de clérigos tornava as rígidas normas de comportamento impostas pela Reforma Religiosa, mais brandas aqui do que na Europa, o papel da mulher na sociedade era subjugada ao homem cabendo-lhe a simples função de reprodutora da espécie, sendo-lhe negado sentir qualquer forma de prazer.

No segundo capítulo “Um século hipócrita”, Mary analisa os adultérios que ocorreram no Brasil, com a chegada da família real, um caso se torna famoso, já que, entre os membros da família real vinha Carlota Joaquina, esposa de D. João, esta já era mal falada de Portugal, onde era acusada de possuir um caso amoroso com o comandante das tropas navais britânicas, Sydney Smith, além de outros casos aqui no Brasil.

Outro membro da família real famoso por seus casos amorosos é D. Pedro, que era casado com a princesa da Áustria, Leopoldina Carolina, deste de 1817. Segundo biógrafos, “Ele não conhecia limites nem diante da família nem diante do marido da mulher desejada. Não importava a condição social: mucamas, estrangeiras, criadas ou damas da corte”. p.58

 Dentre os vários casos de D. Pedro, um dos mais conhecidos, ocorreu justamente quando este viajou até São Paulo em 1822, data da proclamação da Independência, quando conheceu Domitila de Castro Canto e Mello, mais tarde receberia o titulo de Marquesa de Santos (1826), Domitila mãe de três filhos possuía “cicatrizes, um rosto fino e comprido”. As cartas de D. Pedro a amante são recheadas de “suspiros e voluptuosidades”, assinava como “seu Imperador” ou “o Demonão”, “quando não acrescia eroticamente, como se vê em carta no Museu Imperial, o desenho do real pênis ejaculando em louvor da amante”. p.60
Porem, a morte de dona Leopoldina em 1826, aos 29 anos, obrigou D. Pedro a toma mais cuidado em relação ao seu caso amoroso, havia acusações de que Domitila poderia ter envenenado a Imperatriz, as pessoas reagiam negativamente a amante de D. Pedro, e a possibilidade de casamento do Imperador com a amante, aumentou a pressão política sobre o monarca. Que se viu obrigado a casa novamente com outra princesa européia, a alemã Amélia de Leuchtemberg, em 1829, ocasionando o fim do caso mais famoso de infidelidade da nossa história até então.

            Do inicio da colonização até a Independência, segundo a autora, “a família patriarcal era o padrão dominante entre as elites agrária, enquanto, nas camadas populares rurais e urbanas, os concubinatos, uniões informais e não legalizadas e os filhos ilegítimos eram a marca registrada”. p.62 

            Nesse período, como já visto o prazer era negado a mulher, sua função era ser uma esposa obediente ao marido e uma reprodutora da espécie. Cabia ao homem conduzir a relação, quando o marido queria “descendentes” fazia amor com sua esposa, quando queria desfrutar dos prazeres do sexo, era com a outra (prostituta). “A felicidade conjugal era sempre tarefa feminina. A falta de fidelidade masculina, vista como um mal inevitável que se havia de suportar”, não era condenada. p.67 Segundo Mary: “A dissolução dos costumes parece ter sido uma das notas predominantes do Primeiro Reinado”. p.70

O caso de infidelidade do primeiro imperador com a Marquesa de Santos, “os fatos escandalosos sucedidos na corte, na alta sociedade e no próprio clero” servia como exemplo a ser copiado pelos de classes mais baixas da sociedade, nas palavras de Mary era “os grandes dando o mau exemplo aos pequenos”. p.70
O século XIX estar recheado de casos de adultérios, através da imprensa, se percebe como este foi o século hipócrita, quando se vivia de aparências, numa sociedade patriarcal comandada por homens que se dizia honrados e honestos que respeitavam suas esposas nas vistas da sociedade, mas que freguentavam cabarés e desfrutavam dos prazeres da carne.

O terceiro capítulo intitulado, “Primeiras rachaduras no muro da repressão”, a autora analisa que as mudanças ocorridas na política, sociedade e cultura, com a implantação da República e em seguida a Primeira Guerra Mundial, vão alterar o papel tradicional da mulher na sociedade. Nessa nova conjuntura, antes esposa obediente e dedicada aos afazeres domésticos, agora deixam os lares e assumem os postos de trabalhos abertos pelos homens que lutavam na guerra.

A própria economia de Guerra exigia mais agilidade e velocidade, as roupas femininas passam a ser mais leves. Antes a mulher reclusa ao lar com pele pálida, vai aos poucos dando espaço a mulheres preocupadas com a beleza e saúde. Desde o início do século XX multiplicavam-se, os manuais médicos que chamavam atenção para as vantagens das atividades físicas e a prática de esportes. “O lazer graças aos teatros, festas públicas, feriados com sol e mar, incentivou outros jeitos de exibir as formas” p.105
Aos poucos o corpo feminino vai aparecendo aos olhos da sociedade, a fotografia no século XIX e o cinema no século XX, sem esquecer dos teatros, serão os responsáveis pela desmistificação do corpo da mulher. Em 1908 é realizado na França o primeiro filme pornô, conhecido como “O escudo de ouro ou o bom albergue”.

A liberação dos direitos femininos foi uma luta que demorou décadas para quebrar a resistências dos reacionários que pensavam a mulher como uma ferramenta, a ser utilizada pelos homens em prol da continuidade da espécie.
No capítulo “Olhares indiscretos”, a analise se inicia, com a questão do aborto, que à alguns séculos atrás as mulheres faziam de tudo para evitar a continuação de uma gestão indesejada, desde ingerir as famosas “ervas” e dá pulos até os casos extremos como usar objetos pontudos como agulhas, canivetes, colheres, tesouras de costura e espetos de cozinha, para interromper a gestão: “Temia-se mais a gravidez indesejada do que a morte por infecção”. p.143

No entanto, em meio a uma sociedade moralista que combatia os vícios e a sexualidade, já no século XX, há um período no ano em que esses valores ficavam mais frouxos e se permitiam extravagâncias e liberdades, muitos beijos na boca e fantasias nada comportadas, o carnaval era mal visto e muito comentado pelos hipócritas de uma sociedade de aparências. Citando Mary, “O carnaval era visto como uma festa perigosa, depravada, na qual ‘as ligações mais secretas transparecem, em que a virgindade é dúbia e inútil, a honra, uma caceteação, o bom senso, uma fadiga”. p.149

Outro assunto tratado neste capítulo é o referente ao pedófilo, antes conhecido como “pederasta”, segundo a autora, a pedofilia sempre existiu, há relatos na Bíblia (Gênese) e na história da Roma Antiga. No Brasil desde as primeiras visitas do Santo Ofício, no século XVI, que inquisidores relatam o estupro de crianças, meninos e meninas, de seis, sete e oito anos que eram violentadas por adultos, sem nenhum drama de consciência. p.152

Só no começo do século XX, e que passou a existir uma legislação punitiva para tal prática, o Código Penal, sancionou as relações entre crianças e adultos a partir do Art. 266 da Lei de 25 de Setembro de 1915.

Aos poucos práticas antigas são colocadas de lado e novos temas são abordados, no século XX, teremos a maior “revolução” de costumes já vista, velhos tabus como homossexualidade e virgindade, serão discutidos e cada vez mais os costumes se libertam das velhas amarras da “boa moral”.

 No ultimo capítulo “As transformações da intimidade”, a autora analisa, como esse processo de abertura dos “costumes” foi aos poucos rompendo a couraça da moralidade e do pudor social. No século XX, as alterações trazidas pela revolução sexual das décadas de 60 e 70 se somam ao uso da pílula anticoncepcional (inventada em 1956), que começou discreto e aos poucos foi se tornando habito entre as mulheres, possibilitando pela primeira vez na história que as mulheres pudessem ter acesso ao prazer sexual, sem remoço. Um leque de possibilidades se abre, as mulheres passam a ter o direito de trabalhar, estudar e escolher se querem ter ou não filhos. “Era o início do direito ao prazer para todos, sem que as mulheres fossem penalizadas ao manifestar seu interesse por alguém”. p.177

DEL PRIORE, Mary. Histórias Intimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil. São Paulo: Planeta do Brasil, 2011.

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