11.1.16

EMBRIAGUEZ ASSOCIADA AO ALCOOLISMO: UMA SAÍDA PARA AS “MAZELAS” DA VIDA OU UM PROBLEMA SOCIAL? IPU (1978 -2014)

JOÃO FLAVIANO TOMAZ FREIRE
(Texto adaptado a partir da Monografia de graduação em História, com este mesmo titulo, pela Universidade Estadual Vale do Acaraú –UVA-CE, ano 2014)

RESUMO
Este trabalho foca a embriaguez associada ao alcoolismo na cidade de Ipu. Buscamos a principio contar um pouco sobre a história da embriaguez na humanidade e depois partir para a história ipuense destacando os bares, reduto do ébrio e boêmio, os personagens que tiveram envolvimento com o vício do álcool, os prazeres da noite como o prostíbulo ou “zona da perdição” como algumas senhoras chamavam e um fator principal que era ou ainda é tratando-se da bebida e diversão, a música. As bebedeiras após a labuta especialmente as sextas feiras, findando a semana e muitos trabalhadores faziam ou o fazem como um ritual, não importando o tipo de ofício, sem levar em consideração se era formal ou informal. Destacamos as mazelas provocadas pelo uso continuo do álcool e desde o século XIX, os médicos especialistas já encaravam o alcoolismo como uma grave patologia e algo frequente nos dias atuais que é a adesão de muitos jovens a consumação dessa substância, a mídia com incentivadora através dos comerciais e propagandas, a violência e desordem, caso frequente especialmente tratando-se do trânsito e o trabalho da irmandade que conhecemos como Alcoólicos Anônimos.

INTRODUÇÃO
A presente pesquisa tem como foco a história da embriaguez associada ao alcoolismo na cidade de Ipu, num recorte temporal entre 1978 a 2014. A pesquisa foi dividida em três capítulos: o primeiro abordando sobre a história da embriaguez durante a antiguidade, tendo como referencial o trabalho do historiador Henrique Carneiro (CARNEIRO, Henrique, Bebida, abstinência e temperança, Na história Antiga e Moderna, 1º ed. São Paulo: Editora Senac, 2010) que traça sua teoria sobre a “história das ideias”, abordando os grandes filósofos gregos da antiguidade clássica e outras civilizações e defendendo que a embriaguez é uma prática tão antiga quantas outras que acompanham a humanidade, como a própria associação do homem, a prostituição, as guerras e a ira. Seria a ira uma espécie de embriaguez? Pois este sentimento nefasto cega o homem, levando-o a cometer delitos que o torna um “marginal” possuído pelo desejo de destruir, roubar, estuprar e matar.

Os bares e botequins, redutos dos ébrios, do boêmio, lugar para “afogar” as mágoas, desabafos, as contendas diárias que subsistiam e ainda existem nestes estabelecimentos e a música como fator essencial para o entretenimento especialmente após a labuta, onde usaremos também como referência a professora Maria Izilda Santos de Matos (MATOS, Maria Izilda Santos de. Meu lar é o botequim: alcoolismo e masculinidade, 2ª ed. São Paulo: companhia Editora Nacional, 2001.) que aborda as relações sociais tendo como foco o “ébrio e as tensões em torno da construção da masculinidade”. Neste sentido, um distintivo com os homens, trabalhadores antes de irem para o aconchego do lar era primordial dar uma passada no botequim para degustar algum tipo de bebida adotando este estereótipo como uma espécie de ritual. 

O prostíbulo de Ipu, que jamais deixaria de mencioná-lo, pois era um lugar onde reinava a perdição, um território exclusivo de homens sem nenhum compromisso e outros que por sua vez esquecia-se de seu papel como homem trabalhador pai de família, o genitor exemplar, trocando algumas vezes o aconchego da esposa amada em troca do deleite de uma mulher dama onde citaremos dois historiadores ipuenses, Iramar Miranda (BARROS, Antônio Iramar Miranda. Ipu nos Trilhos do Meretrício: Intelectualidade e controle numa sociedadeem formação.Dissertação de Mestrado em História. Universidade Estadual do Ceará -UECE.) e Vitorino Filho (FILHO, Antônio Vitorino. O Discurso do Progresso e o desejo por outra cidade: imposição e conflito em Ipu-Ce. (1894 – 1930). Dissertação de Mestrado em História. Universidade Estadual do Ceará – UECE, 2009.) e lógico além da diversão, as rixas existentes por incentivo do efeito psicoativo do álcool envolvendo vários fatores, desde os ciúmes existentes entre os frequentadores do lugar ou ainda por contendas não resolvidas e por motivos banais. Observei estes casos no trabalho de José Mauro de Lima, onde afirma o seguinte:

[...] Há que considerar a natureza potencialmente violenta do homem (agressividade do natural), as circunstancias e fatores de risco, além da ação “facilitadora” do álcool sobre o cérebro, manifestada pelas alterações de comportamento (agitação, agressividade, perda de controle emocional, logorreia, impulsividade etc.), que são habitualmente observadas nestas situações [...]. (LIMA, Jose Mauro de. Alcoolismo: na perspectiva da Saúde Pública, 1ª ed. Rio de Janeiro: Editora Elétrica, 2008. p. 139 a 140.)

No decorrer do trabalho precisamente no segundo capítulo da pesquisa destacamos alguns personagens históricos que ainda estão na memória dos ipuenses e que ficaram marcados por suas embriaguezes e seus comportamentos perante esta situação, algo corriqueiro em todos os núcleos sociais que supostamente tiveram suas vidas interrompidas pelo uso contínuo do álcool e as sequelas para aqueles que sobreviveram ao inebriante e nefasto vício adquirido durante os vários anos em que se submeteram ao uso das bebidas alcoólicas.
Desse modo posso associar o alcoolismo desenfreado a uma patologia, uma mazela, um mal incurável em algumas ocasiões porque existe certa resistência de pessoas consideradas alcoolistas de largar o vício e novamente se reestruturar dentro dos padrões sociais. Sabemos que existem nos meios sociais pessoas que reconhecem o perigo da consumação exacerbada das bebidas alcoólicas, porém não abdicam deste hábito diário. Pedro Carvalho Filho explica que algumas pessoas não aceitam a questão de serem chamados de alcoolistas ou alcoólatras, porque dizem beber apenas por questão de prazer, embora esta satisfação venha a torná-los viciados e colocarem em cheque, a família, sua condição de cidadão, sua reputação no trabalho.
“Admite-se hoje em dia que o alcoolismo é um problema de saúde pública, com repercussão na sociedade e no trabalho, causando enormes prejuízos às empresas, em consequência dos benefícios previdenciários e as aposentadorias por invalidez, muitas delas causadas por acidentes de trabalho. Por esta razão, chegou à conclusão de que é muito melhor investir na recuperação do doente alcoólico que demiti-lo por justa causa, correndo o grande risco de contratar outro alcoólatra para o preenchimento da vaga.” (FILHO, Pedro Cardoso. Álcool e Drogas Ilícitas. 3ª ed. João Pessoa – PB, Editora Santa Ana, 2008, p. 87.)

No capitulo três abordamos as perdas e prejuízos, tanto para os consumidores sem moderação, como também para economia, pois sabemos que a indústria de bebidas alcoólicas gera milhões de dólares, e em contrapartida suga muito dos cofres públicos quando são acionados os programas sociais de saúde para combater este mal. O alcoolismo não está presente apenas nos países subdesenvolvidos ou emergentes, também é um problema dos países desenvolvidos, pois nas últimas décadas o consumo de bebidas alcoólicas aumentou consideravelmente, gerando problemas tanto para a saúde quanto para os subsídios do governo. Percebemos então que a embriaguez não é apenas um problema para a sociedade, mas também para o governo, pois se trata de uma alerta para as políticas de saúde pública, por isso a dependência química do álcool passou a ser vista com uma “lente de aumento” e consequentemente, como outra doença. Para combatê-la foram instituídos sistemas de prevenção ao alcoolismo para sanar ou mesmo diminuir o número de vítimas dessa “mazela social”, como afirma o professor Henrique Carneiro.

A economia da embriaguez não trata apenas da produção da circulação e do consumo dos produtos inebriantes, ou mesmo das condições especiais de sua regulamentação histórica que vai do uso sagrado ao proibicionismo total, mas também dos seus significados mais gerais, conhecidos sob o termo econômico de “externalidades”, como resultados para a saúde publica, para os acidentes de trafego e outros, para a violência e outros aspectos das consequências sociais do uso excessivo ou abusivo de álcool e outras drogas. (CARNEIRO, Henrique. Op. cit.., p. 234.)

Antes mesmo da mídia, nos comerciais ou as propagandas de bebidas alcoólicas, adotar os slogans de “beba com moderação” e “se for dirigir não beba”, no início do século passado, precisamente na década de 1920, os norte-americanos instituíram a “Lei Seca” em consequência do consumo exagerado do álcool, apesar de muitos consumirem longe dos olhos do governo e da fabricação caseira desta substância. No nosso cotidiano a “Lei Seca” é adotada principalmente durante os feriados prolongados e nos processos eletivos que ocorrem a cada dois ano. No entanto, o que se observa é que essa lei não é cumprida, pois é comum simpatizantes de um partido A, B ou C, consumirem álcool durante e depois dos pleitos.
Em outras palavras, a tal Lei não funciona, podendo gerar um verdadeiro perigo durante este período, porque, perdendo ou ganhando, sempre haverá um descontrole emocional e os excessos por parte destes indivíduos. A respeito da lei, ou melhor, da proibição do alcoolismo, Henrique Carneiro mostra que:

“Nós Estados Unidos, o grande escritor e militante socialista Jack London também se pronunciou a favor da proibição do álcool, escrevendo um livro de memórias de sua própria condição de John Barleycorn, expressão em inglês para o bebedor contumaz, algo como o nosso pé de cana” (Ibidem, p. 209.)

Outro fator que iremos destacar na pesquisa é a adesão de muitos jovens, de ambos os sexos, ao consumo do álcool, seduzidos pelas propagandas comerciais ou pela indústria cultural, pondo em risco o seu futuro, pois muitos se “viciam” cedo, mesmo antes da maioridade, embora talvez, entre em contato com o álcool apenas por experiência, o que pode se tornar algo corriqueiro. Uma vez entregues ao vício, o álcool, como uma droga, acaba por consumir suas vidas e consequentemente abrir as portas para a consumação de outras drogas mais pesadas e ilícitas (maconha, cocaína, crack e outras), como demonstra a análise de Bertoni que no seu artigo mostra como o uso de drogas acarreta perigo extremo para a sociedade, uma vez que o uso das drogas pode levar a criminalidade, tornando-a uma espécie de recurso para o sustento do vício. Por isso, defende ser preciso organizar os programas de prevenção contra o álcool e outras drogas, para que o jovem não adquira para si este transtorno, principalmente no lar, junto à família e à escola, as duas instituições educadoras da sociedade.

“De acordo com North e Orange Jr. (2000), muitos pais nem se preocupam que os filhos bebem demais, há, inclusive, aqueles que os encorajam. A preocupação é se estão consumindo drogas ilícitas (maconha, cocaína, crack ou outras). Isso pode um indicio que tem a ideia de que a bebida é saudável ou não é tão vilã um processo de dependência que pode demorar anos, que é avassaladora e não é tão vilã quando poderiam prever. No entanto, é preciso estar alerta: tomar a primeira dose pode colocar um jovem em um processo de dependência que pode demorar anos que é avassalador e irrefreáve.” (BERTONI, Luci Mara. Educação, Juventude e Alcoolismo. In: MAGALHÃES, Lívia Diana Rocha, at. alli. (orgs), HISTÒRIA, CIÊNCIA E EDUCAÇÃO, 1ª ed. Campinas, Alínea Editora, 2011,p. 178.)

É comum no nosso cotidiano nos depararmos com situações em que indivíduos se entregam ao vício exacerbado do consumo do álcool, mesmo sabendo da sua periculosidade, o que pode trazer prejuízos avassaladores para suas vidas, como a própria perda da conduta moral, da identidade e, também, do respeito. Por ser uma droga nociva e com potencial para o vício, o álcool pode levar à dependência, transformando a diversão numa doença por alto potencial de destruição. Segundo Silveira, “O alcoolismo é considerado uma doença pela Organização Mundial da Saúde. Assim, o alcoólatra é um doente que necessita de um tratamento” (SILVEIRA, Ajax C. da. O Drama do Alcoolismo: causas, consequências e solução. 3ª ed. São Paulo: Casa Publicadora Brasileira, 1981, p. 156.)

Três problemáticas que também abordamos dizem respeito, primeira, aos efeitos negativos da associação entre bebida e direção, causadoras de violência no trânsito. Temos assistido frequentemente como motoristas imprudentes, impulsionados pelo o abuso do álcool, perdem suas vidas ou ceifam as de outras pessoas inocentes, que pagam com a própria vida os absurdos desses “assassinos”. E, segunda, como o uso abusivo de álcool tem gerado violência doméstica, principalmente nas regiões periféricas das cidades. Devo relatar que essa violência é apenas uma marca das classes menos abastadas, mas também de outros indivíduos vinculados à elite social. Porém, são nas conhecidas “classes baixas”, dentro da visão mais conservadora, que temos relatos de violências causadas pelo consumo excessivo do álcool, como os atos brutais contra a mulher e a criança. E na terceira, finalmente, abordamos os problemas econômicos decorrente do consumo de álcool como a perda do emprego por irresponsabilidades dentro do ambiente de trabalho, quando o trabalhador exerce seu trabalho sob efeito da droga ou a consume no próprio ambiente de serviço. Sobre isso, Lima tem algo a dizer:

“Assim, no tocante à saúde do empregado e da empresa, interessa os “problemas relacionados” que estão mais frequentemente vinculados ao abuso do álcool do que um quadro de dependência química propriamente dita. Neste caso, passam a ser interesse para o Programa, situações de abuso de álcool nos fins de semana, em casa, fora da empresa, mas, que ao longo do tempo, poderão repercutir nas segundas-feiras, na queda da produtividade durante a semana, nas licenças médicas repetidas, nos acidentes de trabalho e/ou trânsito, nas aposentadorias precoces, nos distúrbios familiares que afetam o humor e o estado de equilíbrio psicológico necessário a todos etc., [...]”. (LIMA, José Mauro Braz de. Op. cit., p. 87.)

Estas questões são comuns no nosso cotidiano e esses indivíduos necessitam urgentemente de um acompanhamento profissional com um analista ou psicólogo, com o objetivo de amenizar este transtorno e conduzi-los a sobriedade e, assim, reabilitá-lo às atividades profissionais. No entanto, devo dizer que reverter à situação não é uma tarefa fácil, pois, em muitos casos, “curado” da doença, as recaídas podem levá-lo novamente de volta ao vício. Os muitos exemplos estão aí. O que fazer nessas situações?

Existe, acredito, em todas as cidades do Brasil ou na maioria delas, o grupo ou irmandade conhecida como Alcoólicos Anônimos (AA), organização não governamental semelhante a uma facção religiosa, que tenta a todo custo trazer “adeptos” para sua associação como forma de diminuir os consumidores de álcool, resgatá-los do vício e, consequentemente, reintegrá-los à sociedade.
Na maioria das vezes, tanto a família quanto os médicos que acompanham estes pacientes apelam para internações urgentes nas clínicas de desintoxicação, numa forma mais eficaz de recuperar o doente. Porém, nem sempre isso ocorre desta maneira, tudo porque algumas vezes, a família é a primeira a bater o martelo, sendo omissa a esta situação agravante, promovendo a desestruturação social do indivíduo.

Consequentemente, o abandono pode ser a válvula de escape para o submundo do extremo vício e para mendicância, como pedir um a outro dinheiro para beber, na completa sarjeta dilacerando sua alma e seu ego, conduzindo-o a um verdadeiro desequilíbrio e prejuízo psicológico.

CAPITULO I
EMBRIAGUEZ, UM GRAVE PROBLEMA SOCIAL NA CIDADE DE IPU
Conforme a discussão levantada por Henrique Carneiro sobre bebida, abstinência e temperança percebo que a embriaguez deva estar associada à loucura, demência, degeneração da alma, rebaixando o homem a uma espécie de estado primitivo, podendo ser permanente ou estável, tratando-se da história do álcool na humanidade. Supostamente essas ideias retratam a leviandade do vício e a constituição de uma negativa premissa de que a bebida alcóolica já se incorporou aos diversos meios sociais desde os primórdios, usada até nas cerimônias religiosas das civilizações antigas.

“Mais do que apenas uma história dos produtos, a historia da embriaguez deverá ser uma historia das ideias, assim como das práticas, dos atos e dos discursos, dos gestos e das palavras. O corpo ébrio seria, antes de tudo, o que ele faz ou deixa de fazer, a sua conduta mais ou menos razoável, a sua disposição de ceder mais ou menos controladamente aos seus impulsos e as suas vontades e a sua forma de ritualizar coletivamente esse desprendimento. Ou, antes de tudo, o corpo ébrio seria o que dele se pensa e se escreve se censura ou se aprova?” (CARNEIRO, Henrique. Op. cit., p. 13.)

Talvez quem se identificou com as oblações às divindades ou se personifique com elas tenham sido os antigos gregos, pois a consumação do vinho fazia parte do dia a dia dessa civilização e estudos confirmam que o povo helênico consumia excessivamente, sem restrições, portanto. Por isso divinizaram o fruto da videira, criando para si o deus Dionizio que constantemente era celebrado nos banquetes, festas e nas orgias, pois era uma prática comum nestas celebrações, dedicadas ao deus.
A civilização romana na qual atribuímos também o nome de sociedade clássica, assim como os gregos, tinha o hábito de consumir vinho, porque foi neste contato entre romanos com gregos que houve então uma troca de cultura, principalmente para os romanos que absorveram muito da cultura helênica e introduzindo-a no seu meio, constituindo novos hábitos. Assim como nas festas e oblações gregas, as dos romanos não eram diferentes, pois existiam as comemorações atribuídas a Baco, uma réplica do deus grego Dionizio, nas orgias chamadas também de bacanais, exercidas até pela alta hierarquia romana (cônsules, magistrados, tribunos, etc.). Como afirma Pedro Cardoso Filho, “O hábito de consumir bebidas fermentadas continuava se alastrando, até atingir a civilização mediterrânea, aonde chegou o clímax com as orgias e bacanais regadas a vinho, nas suntuosas festas do poderoso Império Romano” (FILHO, Pedro Cardoso. Álcool e Drogas Ilícitas. 3ª ed. João Pessoa – PB, Editora Santa Ana, 2008, p.). Prática comum no cotidiano desta sociedade, não obstante haver pudor, principalmente quando em alto estado de embriaguez. Neste contexto, posso dizer que o álcool sempre esteve presente na história do homem. Conforme Eliana Sales no seu artigo.

 “(...) é bem verdade que não se pode precisar sua origem exata, mas sua presença nos versos, músicas, poesias, pinturas, mitologias, lendas, e obras literárias demonstrando quanto essa prática esteve vinculada ao ser humano em suas múltiplas dimensões, ora como veículo de remédios, de perfumes, de expressão artística e intelectual, ora como líquido extasiante capaz de provocar reações de prazer, de olvidação das tensões, de distinção social e, principalmente sendo o componente essencial de bebidas consumidas como parte da alimentação, dos ritos religiosos, da alegria e confraternização de diferentes povos ao longo da historia da humanidade.” (SALES, Eliana. Aspectos da História do Álcool e do Alcoolismo no século XIX. In: MIRANDA, Carlos Alberto Cunha, at. Alli. (orgs), Escritos sobre a saúde, doenças e sociedades, 1ª ed. Recife, Editora Universitária – UFPE, 2011, p.168.)

Em geral as bebidas alcóolicas durante a história da humanidade teve sua evolução dentro da característica de cada sociedade até chegar aos nossos dias, pois é bem sabido que em todas as camadas sociais há consumidores de toda espécie, moderados, aqueles que mantem uma temperança, bem como outros que são extravagantes quanto ao consumo excessivo do álcool. E muitos tendem a levar a ingestão do álcool similar a uma espécie de ritual como, por exemplo, beber a urina do menino quando nasce um filho varão ou em outros casos dando um último adeus a um amigo ou parente, algo tradicional nas cidades interioranas como beber o defunto. Neste contexto, Henrique Carneiro apresenta que.

“Assim, é possível analisar, por meio de escritos, um conjunto de ideias religiosas, medicas ou simplesmente morais a respeito das ingestões alcoólicas e de seus efeitos. Mas a historia da ebriedade é também uma historia do próprio corpo, de suas técnicas seus gestos, suas formas de administrar o que se ingere, de estabelecer limites de excessos e de carências, de contar roteiros, de comportamentos involuntários que vão da euforia a prostração e, dessa maneira se inscreve numa vertente mais contemporânea de estudos interdisciplinares que se denominaram “história do corpo”.” (CARNEIRO, Henrique. Op. cit., p. 14, 15.)

A produção das bebidas alcóolicas, bem como a sua consumação, tornou-se prática comum em todas as sociedades e também em todas as regiões do globo. Mesmo as sociedades mais remotas já se utilizavam das técnicas e, a produção de bebidas, como tudo que o homem criava, era artesanal. Indícios arqueológicos demonstram que esta substancia entorpecente surgiu a milhares de anos.

As fermentadas, como o vinho, e a cerveja, foram as primeiras a surgirem e, tanto a sua produção, quanto à qualidade das bebidas foram sendo aprimoradas conforme a evolução das civilizações. José Mauro Braz de Lima reafirma isso em seu livro Alcoologia, falando sobre o processo do surgimento das bebidas alcoólicas.

“A história da humanidade se escreve juntamente com a história da descoberta e do hábito de uso das bebidas alcóolicas, no tocante à evolução do próprio processo civilizatório (...). Considerando-se dados de estudos arqueológicos, pode-se dizer que nos primórdios da nossa civilização, há cerca de 6.000 a 7.000 anos a. C, já existiam indícios das bebidas alcóolicas produzidas pelo homem, artesanalmente.” (LIMA, José Moura Braz de. Op. cit., p.11.)

Acrescento que nem todas as civilizações ou sociedades faziam ou fazem uso do álcool, por exemplo, o Islã proibiu o uso das bebidas alcoólicas por seus seguidores, constituindo um regimento proibicionista no mundo atual. É uma das grandes civilizações monoteístas do mundo, como o cristianismo e o judaísmo.
Como o cristianismo, é também uma ramificação do judaísmo, pois o seu principal profeta, Maomé, teve contato com as religiões judaica e cristã. O islã adotou preceitos rígidos, e um deles é a proibição do uso das bebidas alcoólicas, seja de qualquer natureza, ao lado também dos jogos de azar, como está escrito no livro do Corão: “Ó vós que credes o vinho, os jogos de azar, os ídolos e flechas de adivinhação obras repugnantes do demônio. Evitais. E possais prosperar.” (Versículo 5:90). “O que o demônio quer é introduzir o ódio e a inimizade entre vós por meio do vinho e dos jogos de azar e vos desviar da recordação de Deus e da prece. Não vós abstereis deles?” (Versículo 5:91). (ALCORÃO. Trad. Mansour Challita, 5ª ed., Rio de Janeiro: Best Bolso, 2012, p. 109.)

Podemos chegar a conclusão desta tal abstinência do islã por meio das competições automobilísticas, especialmente a Formula1, onde os pilotos vencedores comemoram com o suco de frutas ao invés da tradicional champanhe. Posso dizer que apesar da sociedade islâmica fazer restrições quanto ao consumo alcoólico, observei que certos prazeres estão inclusos na cultura deste povo como a poligamia, coisa totalmente fora dos padrões ocidentais, principalmente entre os adeptos das religiões cristãs.

No limiar deste capítulo abordamos a respeito dos bares, bodegas e botequins, redutos do ébrio, sejam estes estabelecimentos localizados no centro ou mesmo nos bairros periféricos da cidade de Ipu e as casas noturnas que toda sociedade conheciam como Cabaré, ponto de encontro para as bebedeiras e também homens buscando a diversão através do sexo, o que era comum neste ambiente, às rixas talvez pelo incentivo do álcool, disputando o “amor” da meretriz ou por uma desavença, pois o alcoolismo está diretamente associado à violência e a ebriedade era um estopim para gerar conflitos aonde tinha um desfecho de ferimentos leves à graves, casos que na sua maioria tornavam-se insolúvel devido a não interferência policial.

BARES, BODEGAS, BOTECOS E BOTEQUINS A GEOGRAFIADA BOEMIA (Mapa da zona urbana da cidade de Ipu, destacando os principais Bairros e os bares. Acervo de Joao Freire. Imagem somente no trabalho na integra) 1. Pavilhão Bar (centro), 2. Bar O “Gostosão”. (Bairro da Caixa d’Água), 3. Churrascaria O “Teixeira”. (Bairro Pereiros), 4. Bar do Luciano. (Alto dos 14), 5. Bar do Maírton. (Bairro do Corte), 6. Mercado Público. (Centro), 7. Bar Amarelinho. (Bairro Pereiros), 8. Clube da AABB (Pereiros)

Estas nomenclaturas dadas a estes estabelecimentos comerciais, às vezes são distintos entre si, como por exemplo, as bodegas que têm significado de taberna, ou lugar sem higiene. Porém, é comum nas cidades interioranas esses tipos de casas comerciais serem usadas na comercialização de produtos alimentícios e outros mais, além de servirem bebidas alcoólicas. E outros ainda mais rústicos chamados de quiosques, localizados na beira das esquinas do centro da cidade de Ipu, onde se aglomeravam várias pessoas, trabalhadores autônomos, outros com seus empregos formais e que durante o intervalo do expediente de trabalho tomavam um café e até uma bebida, como um conhaque ou mesmo um “engasga gato”
No entanto, uma urbanização mais organizada no início da década de 1990, desativou muitos desses quiosques para dar um ar, digamos, mais elegante ao centro. Uma das “vítimas” foi o Bar do Pantico, localizado na atual Praça Pedro César Tavares, também conhecida como a Praça do “Pau Mole”, pois quando se sentava no banco dava impressão de baixar alguns centímetros como se fosse partir. Dentro dessa perspectiva Chalhoub afirma:

“(...) o botequim e o quiosque, a despeito dos seus algozes, apresentam múltiplos significados. O quiosque era uma armação frágil de madeira, em estilo oriental, construído nas calçadas e ao redor do qual os populares se reuniam para beber. (...), baleiros, carregadores, vendedores de jornais e outros trabalhadores autônomos, costumavam se reunir em torno do quiosque para tomar goles da “branquinha”, enquanto esperavam a freguesia”. (CHALHOUB, Sidney. Trabalho, Lar e Botequim: o cotidiano dos trabalhadores no Rio de Janeiro da belle époque, 2ª ed., Campinas, SP. Editora da Unicamp, 2001, p. 257 e 25.)

Já os bares são especializados em servir bebidas alcoólicas seguidas de aperitivos, chamados de tira-gostos, pratos variados. Os botecos ou botequins se assemelham a eles e é comum observarmos pessoas que, de vez em quando, entra na bodega ou no botequim para, além de tomar um trago, discutir sobre diversos assuntos da contemporaneidade, principalmente política local, futebol e, até mesmo falar da vida alheia.
Antes de almoçar, principalmente aqueles trabalhadores autônomos, chegados recentemente do trabalho (pedreiros, mecânicos, por exemplo), praticam este ato como uma espécie de ritual, permanecendo ali por várias horas. Como afirma Eliana Sales no seu artigo.

“No botequim, o trabalhador reencontrava seus companheiros para trocar ideias, afogar suas mágoas, falar sobre politica, comer e beber juntos. Logo, este estabelecimento tinha uma função maior do que simplesmente fornecer bebidas, era o centro de sociabilidade operária, espaço central para produção ou reprodução das relações sociais, sobretudo entre os homens.” (SALES, Eliana. Op. cit., p. 188.)

Um dos bares mais famosos da cidade de Ipu foi o Bar Cruzeiro, fundado na década de 1940, onde frequentava a elite ipuense, homens bem trajados acompanhados com suas esposas, pois se tratava de um ambiente social sadio, desprovido de qualquer situação que viesse a macular o ambiente, como relata Valdemira Coelho. “O Sr. Pedro Tavares- proprietário do bar era um cidadão dinâmico, social, animado e sentia-se feliz em oferecer a família ipuense um entretenimento saudável” (MELLO. Maria Valdemira Coelho, Ipu em Três Épocas. Fortaleza-Ce, Popular Editora LTDA, 1988. p. 54.)

O bar foi então mudando de proprietário e durante a década de 1970, aproximadamente 1976, passou a funcionar como um bar popular, agora frequentado por todas as classes sociais. Manteve-se de pé até a primeira metade da década de 1980. O local atualmente abriga uma loja de telefones eletrodomésticos, celulares acessórios, a Mix Celulares. Durante as cinco últimas décadas, houve uma série de modificações na sua estrutura física.
Podemos observar, na imagem acima, aspectos do cotidiano das pessoas na época. Parece ser dia de grande movimento comercial, pois há uma aglomeração expressiva no centro da cidade, para a década de 1950.

Pessoas que iam comprar vender, pois se tratava na ocasião do novenário de São Sebastiao, padroeiro de Ipu, e com certeza degustar algum tipo de bebida, acredito não apenas no Bar o Cruzeiro, mas em outros estabelecimentos comerciais localizados próximos a região central da cidade de Ipu, que vendiam de tudo desde alimentos como também bebidas alcoólicas. (Bar Cruzeiro no ano de 1951. Acervo do Professor Melo. Imagem disponível no trabalho na integra)

O interessante para a época é o traje que as pessoas usavam principalmente os homens, pois era uma afronta para a sociedade da época alguém andar de bermudas ou short como acontece na atualidade. O chão de terra batida hoje substituída pelo asfalto.

Um dos ambientes mais frequentados durante a segunda metade da década de 1970 até o início da primeira década do novo século foi o “Pavilhão Bar”, que antes se chamava Café Estação, pois os agentes, maquinistas e funcionários da estrada de ferro utilizavam o estabelecimento para tomar um café, bem como para fazer um lanche rápido e seguir viagem, localizado no centro da cidade, tendo como ponto de referência a Estação Ferroviária.
Ponto estratégico, pois quando havia o transporte de pessoas que iam para as cidades de Sobral, Fortaleza, Crateús, entre outras, na estação, eles aproveitavam para degustar algum tipo de bebida, tanto quem partia quanto quem chegava.
Havia naquele lugar comerciante ambulante que tradicionalmente chamamos aqui na cidade de Ipu de “cafezeiras”, mulheres que vendiam iguarias típicas da culinária indígena e afro-brasileira, tapiocas, cuscuz, cocadas, batatas doces, etc., bem como comidas caseiras como o frango cozido e a panelada, além do café.
Recordo-me bem do alvoroço das pessoas nos primeiros anos da década de 1980, gente indo e vindo, vendendo, comprando, casais de namorados e crianças correndo e posteriormente os gritos desesperados de pais preocupados com o trem para não perderem a viagem como também no caso de um suposto acidente envolvendo os filhos, fato que ocorreu precisamente até 1985, ano da desativação do transporte ferroviário de passageiros, algo que modificou totalmente o cotidiano do centro da cidade de Ipu e diferentemente de outras cidades, cujo serviço se manteve até a segunda metade da década de 1970, como foi o caso de Camocim.

O Estação Bar era o ponto de encontro da juventude ipuense durante as décadas de 1970, 1980, 1990 até a primeira metade da década do novo milênio. Muitos marcavam encontros neste local como uma espécie de reunião e ninguém hesitava de dizer um não, sem se importar com a época. Talvez apenas na quaresma algumas pessoas não frequentassem com mais expressividade o Pavilhão Bar.

O psicólogo e ex-diretor de um programa de recuperação de alcoólatras, Ross Fishman, traduz no seu trabalho “Tudo sobre drogas” a adesão de jovens ao uso do álcool como uma espécie de incentivo para as galanteadas, acredito que tenha a ver com o que acontecia com muitos jovens que tomavam seus primeiros goles no Estação Bar, em especial na companhia dos amigos mais “velhos” e experientes, sem o conhecimento e consentimento de seus pais. Acredito que tal hábito servia até para minimizar a timidez para uma possível abordagem a uma garota.
Depois de degustar pelo menos o suficiente, sem exageros creio, ficávamos dando voltas no calçadão angular, sempre rodando ao contrário da garota que se estava “afim”, como diziam os jovens da época e que ainda usam este termo quando uma pessoa estiver com pretensões de namorar alguém. Conforme Fishman.

“A crença de que uma reunião social possa não ser agradável sem que inclua consumo de álcool é comum na nossa sociedade. Muitos adolescentes acham que beber os estimula para diversão e para o namoro, isto é, para os prazeres. Garotos e garotas incluem bebidas em festas, idas ao cinema ou jogo de futebol como elementos favoráveis ao prazer. Trata-se de um mecanismo cultural que identifica o álcool com o prazer e que deve ser desmascarado, pois a maioria dos prazeres é usufruída de forma mais intensa sem os efeitos retardadores de metabolismo característicos do álcool.” (FISHMAN, Ross. Tudo sobre Drogas, alcoolismo. 1ª. ed. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1988, p. 48.)

Porém, nem todas as pessoas que frequentavam o ambiente eram usuárias de álcool, pois o mesmo lugar servia como passeio para casais junto com a família sendo, expressivamente movimentado durante os festejos de São Sebastião e São Francisco quando, ao final das novenas, uma “avalanche” de pessoas descia da Matriz para o parque de diversões e as barracas que ficavam também no mesmo lugar, num terreno de terra batida, caracterizado por um barro vermelho, mas que antes era aguado com o objetivo de amenizar a poeira. Hoje o local foi revitalizado e em seu lugar foi construído um praça (Praça Pedro Cesar Tavares, já citada) que é frequentada por muitos idosos, principalmente no entardecer.

A churrascaria e bar do “Luiz XV”, apelido do proprietário, que funcionou entre o final da década de 1970 até a primeira metade dos anos de 1990, localizado no bairro do “Corte”, próxima à linha férrea, também era um atrativo para aquelas pessoas que gostavam de uma distração nos finais de semana. Se ia lá para dançar, beber.

Durante os sábados havia as famosas “tertúlias”. Possuía um público fiel que quase sempre lotava. Era um ambiente com músicas conforme a época, no princípio com um som simples, uma radiola, mas com a evolução tecnológica passou-se a usar um som mecânico mais potente atraindo a juventude da época que se conformava com este tipo de entretenimento já que a cidade na época não oferecia muita diversão para a sociedade. Atualmente o lugar onde existia o comércio, abriga uma comunidade evangélica.

Outro ambiente similar ao citado no parágrafo anterior era Churrascaria e Bar do “Teixeira”, localizado no Bairro Pereiros. Um bar bem frequentado especialmente em dias de jogos dos campeonatos regionais, além do Campeonato Brasileiro e competições internacionais. Todos assistiam aos jogos pela televisão ali estrategicamente colocada. Em algumas ocasiões alguns torcedores mais exaltados ficavam trocando xingamentos em protestos contra um impedimento duvidoso, um gol mal anulado, especialmente quando se tratava de um clássico regional.
Recordo-me quando assisti ao jogo Botafogo 1 x 0 Flamengo (Final do Campeonato Carioca de 1989), quando Mazolinha cruzou da esquerda para a direita e Maurício completou colocando para o “fundo da rede” rubro negra. Porém, no replay, alguns torcedores protestaram quando afirmaram que o atacante do Botafogo havia empurrado o zagueiro flamenguista Zé Carlos II. Eram tantos os xingamentos movidos pela consumação alcoólica que resolvemos deixar o recinto, pois os nervos estavam alterados.

“Eram coisas do futebol como ainda acontece nos dias de hoje. Conforme Chalhoub, [...]. “a venda ou botequim é cenário para o surgimento e desenrolar de rixas e conflitos pelos motivos, desde os problemas ligados ao trabalho e habitação, passando pelas relações entre vizinhos, até as contendas por motivos mais especificadamente ligados ao lazer, como os jogos, o carnaval ou a bebida” (CHALHOUB, Sidney. Op. cit., p. 312.)

O auge deste bar ocorreu durante a década de 1980. E o momento mais concorrido se dava nas vésperas de carnaval. Na chamada sexta-feira magra era realizada uma espécie de pré-carnaval, onde recebia um grande público. Era animada por bandas locais e que tocavam as tradicionais marchinhas e frevos, além das músicas dos blocos locais, pessoas fantasiadas era como uma espécie de baile de máscaras ou carnaval da saudade, pois os ritmos baianos já estava despontando como o ritmo que iria modificaria o carnaval.
Perdurou até o final da década de 1990, quando o seu proprietário, o Sr. Teixeira (já falecido) resolveu arrendá-lo para outros comerciantes do ramo, sobretudo com o mesmo sistema que o antigo proprietário como bar e restaurante que no princípio consegui obter uma clientela, mas que devido à ausência do Senhor Teixeira, a clientela foi se distanciando o que ocasionou uma espécie de falência das pessoas que se interessavam em tocar o negócio.
Até hoje, nenhum comerciante conseguiu se firmar, não obtendo o mesmo sucesso do dono anterior. Mistérios?

Existiram também os bares periféricos como ainda existem em qualquer cidade seja ela grande média ou pequena, bodegas ou botequins, onde pessoas se aglomeravam para beber. Em algumas ocasiões, estes indivíduos passavam o dia bebendo sem se preocupar com a vida ou o dia seguinte. Até mesmo logo pela manhã por volta das 06h00, ainda esperando o dono do estabelecimento abrir. Isto está bem vivo na minha memória, pois estudava neste horário na Escola Delmiro Gouveia, no Bairro da Caixa d’Água, e visualizava o cotidiano destas pessoas até pelas 11h00, quando voltava da escola e depois das 16h00 quando ia para o único lazer que tínhamos na infância e na adolescência: o futebol nos campos do C.S. U (Centro Social Urbano), atual CVT. Para chegar lá, passávamos por muitos bares observando o cotidiano dessas pessoas.

Um desses locais onde estas pessoas se encontravam para satisfazer seus desejos ou vícios era o bar do Senhor Mozar, homem tranquilo e de voz macia, bem cadenciada. Por incrível que pareça, não sabíamos realmente quando ele estava falando ordeiramente ou irritado com os “bebuns”. Nas “bodegas”, a única bebida alcoólica servida era a cachaça, devido ao seu baixo custo sendo a preferida dessas pessoas. Atualmente reside na cidade de Fortaleza e uma vez ou outra, visita a terra natal em janeiro durante a festa da AFAI (Associação dos Amigos e Filhos do Ipu). Conforme Jandira Mansur, “[...] aliado ao seu baixo preço, isto pode fazer do álcool uma droga aparentemente mais atraente que outras substâncias (é claro que o conteúdo energético fornecido pelas bebidas alcoólicas assume uma importância maior em regiões em que a fome é constante)”. (MASUR, Jandira. O que é alcoolismo. 2ª ed., São Paulo: Brasiliense, 2004, p. 11.)

Confesso que tinha um pouco de medo ao passar pela rua estreita que dava acesso ao bar, e o outro lado da rua, porque eram comuns as desavenças entre os “biriteiros” e qualquer xingamento mais expressivo era motivo para que esses indivíduos se digladiassem no “tabefe”, como falamos por aqui, e quando realmente existia confronto de xingamentos, palavrões e brigas, “pernas para que te quero”. Então é preciso compreender um pouco sobre a pluralidade desses sujeitos, os lugares que frequentavam e os fatos ocorridos. Ao ler o artigo de Eliana Sales fiz uma associação com o cotidiano desses atores, bem como o ambiente. Isso aconteceu entre os anos de 1982 e 1985.

Depois, talvez cansado desses fatos corriqueiros, o Senhor Mozar fechou o bar, creio para a tristeza dos consumidores de cachaça que, após este período, compravam cachaça em algum outro lugar, usando como abrigo a sombra a caixa d’água, imenso reservatório de água, de onde vem o nome do bairro. Existia e ainda existe uma caixa d’água de 30 metros de altura. Historicamente a embriaguez em proporções exageradas torna qualquer indivíduo agressivo ou irritado, promiscuo, voltado para a prática da violência e a perturbação pública como nos exemplifica Eliana:

“No primeiro (gole), a pessoa não se acha totalmente embriagada, ela torna-se risonha, expansiva e alegre. (...) Já no segundo, a pessoa torna-se agitada e agressiva, pronunciando palavras desconexas, a exaltação cede lugar a depressão, a pessoa fica triste, melancólica e apática, apresenta enfraquecimento dos sentidos, da atenção e da percepção, movimentos e gestos desordenados, dissociação de ideias, memória prejudicada, vontade paralisada, as paixões e os impulsos tornam-se mais intensos, obscurecimento da inteligência, irritação, ausência de sensibilidade, alucinações, etc. (...).” (SALES, Eliana. Op. cit., p.191.)

A grande maioria dessas pessoas que frequentava o bar do Senhor Mozar já não se encontra entre nós, ou seja, muitos já morreram, seja por consequência das constantes bebedeiras, ou de outras moléstias contraídas pelos males causados pelo abuso excessivo do nefasto vício. No cotidiano ainda me lembro de alguns deles que agora estão bem velhos e com a saúde debilitada. Estes fatos não eram vinculados apenas ao gênero masculino, mas também às mulheres. Não sei realmente qual o motivo de se entregaram ao vício desenfreado, seus semblantes eram como trapos humanos, desamparados e desenganados da vida. Devo também salientar que o vício não moderado das bebidas alcóolicas não era privilégio de apenas uma classe, pois todos bebiam ou bebem: ricos ou pobres, como informa Eliana Sales a respeito da cachaça, onde os consumidores deste produto alcóolico sofrem algum tipo de discriminação social.

“Cabe ressaltar, no entanto, que a cachaça mesmo sendo apreciada por pessoas de diferentes segmentos sociais, geralmente, esteve associada às camadas mais humildes da população, adquirindo também seu consumo certo preconceito (bebida de pobre, negro, sendo inclusive, menos valorizada em relação a outros tipos de bebidas). Conforme Alencastro esse aspecto está correlacionado ao seu papel de mercadoria-escambo de escravos africanos e também pela associação que se estabeleceu entre a cachaça brasileira e São Benedito, o santo negro, esta “representação racial do santo Cabe ressaltar, no entanto agregou ao uso de bebida que até o início do século XX foi considerado no Brasil como uma bebida quase exclusivamente de negros”. (Idem, p.)

É plausível dizer que hoje a cachaça é uma bebida apreciada em todas as classes sociais, etnias. Ela é destacada nas propagandas desde a década de 1980, algo que vamos analisar no terceiro capítulo, e seu consumo tem se tornado um hábito nos estabelecimentos comerciais frequentados pela classe abastada. Segundo Eliana Sales, a bebida historicamente foi produzida pela elite colonial dos grandes engenhos e passou a fazer parte dos alimentos da classe humilde, usada até como uma espécie de moeda de troca, como demonstra na citação anterior. As classes humildes adotaram-na também como remédio e revitalizador das forças para labuta.

“O surgimento da teoria álcool-alimento, desenvolvida nos anos de 1840, pelo químico alemão Liebig, comprova o quanto ainda era muito presente o uso das bebidas alcoólicas nas praticas médicas. Liebig acreditava nas propriedades energéticas do álcool considerando-o alimento termogênico, cuja função era estimular o funcionamento do aparelho digestivo. As próprias bebidas destiladas também entravam nas composições alcoólicas pelos médicos como a Poção Todd, formulada pelo médico inglês Bentley, por volta de 1880, que consistia numa mistura de água e aguardente indicada para tratar depressão, fraqueza física, febres, inflamações, pneumonia, escarlatina, erisipela, varíola, sarampo etc.” (Ibidem, p. 179.)

Os chamados escândalos estavam estampados em todos os ambientes sociais, desde a classe que vivia na periferia, quanto àquelas mais abastadas. Os casos envolvendo pessoas da “camada superior” ocorriam com frequência como no exemplo do ex-prefeito Francisco Rocha Aguiar, que segundo relatos, quando estava munido de uma embriaguez violenta, urinava em qualquer lugar, causando um sentimento de repulsa a, quem testemunhasse aquela cena embaraçosa. Porém como se tratava de uma pessoa importante no círculo social, imediatamente este caso era abafado.

Durante o trabalho, citarei alguns nomes de famosos que ainda estão vivos na mente dos ipuenses, com características peculiares que, de vez em quando, arrancava risos com suas chacrinhas, e claro, incentivadas pelo o álcool, mas quando no dia seguinte, voltava ao seu “eu” eram sérias, rabugentas e não gostavam de muita conversa. Qualquer comentário do dia anterior era motivo para contrair uma rixa e o sujeito perdia a oportunidade de ficar calado. Além do rancor estampado em suas faces, quando se irritavam, mostravam ser violentas, até capazes de puxar facas para seus supostos desafetos.
As famílias desses ébrios ficavam omissas a esta situação, porém, não gostavam que outros tirassem sarro do comportamento destas pessoas. Momentaneamente estes aspectos promovem rupturas familiares porque, na verdade, os seus parentes os abandonam e os distanciam do seio familiar, uma discriminação por parte até de seus entes queridos. Sendo assim, estas pessoas ficavam entregues a própria sorte, moribundos, desvalidos, enfim.
O álcool degenera o ego de qualquer indivíduo, não importando sua origem, raça, sexo, credo, pois qualquer deslize é um fato e não tem nada pior do que a ressaca moral, especialmente quando estes indivíduos, não sabendo controlar sua ebriedade, cometem absurdos que trarão prejuízos, como o desprezo por parte das pessoas que ele supostamente atingiu. Falando em situações, digamos embaraçosas e estúpidas, vejamos uma passagem bíblica do livro do Gênesis.

“Noé que era agricultor plantou uma vinha. Tendo bebido vinho embriagou-se, e apareceu nu no meio de sua tenda. Cam, o pai de Canaã vendo a nudez de seu pai saiu e foi conta-lo aos seus irmãos. Mas Sem e Jafet tomando uma capa, puseram-na sobre seus ombros e foram cobrir a nudez de seu pai, pois tinham os seus rostos virados [...]” (Gênesis, 19: 33-34, p. 56.)

Noutra passagem bíblica podemos notar algo que fere os valores morais daquele tempo, quando na fuga de Lot, sua mulher, que depois foi transformada em sal devido à desobediência de não olhar para trás, ordenada por Deus, e de suas filhas no momento da destruição de Sodoma, as filhas de Lot resolveram embriagá-lo, para em seguida manter relações sexuais com o pai no objetivo de engravidar para perpetuar a posteridade de Lot, pois não existia nenhum homem varão nos arredores por causa da destruição da cidade, quando todos pereceram. As filhas de Lot aproveitando-se do estado de embriaguez de seu pai dormiram com ele.

“[...] Elas fizeram, pois, o seu pai beber vinho naquela noite, então a mais velha entrou e dormiu com ele; porém, nada notou, quando ela se aproximou dele, nem quando ela levantou. No dia seguinte disse ela á sua irmã mais nova: “Dormi ontem com meu pai, façamo-lo beber vinho ainda uma vez, esta noite, e dormirás com ele para nos assegurar uma posteridade [...].” (Gênesis, 20: 24-26, p. 65.)

Percebemos nestas duas passagens bíblicas, o quanto a embriaguez desenfreada ou em excesso pode levar um indivíduo ao inconsciente e posteriormente, mesmo que involuntário no caso de Lot cometer atos que promovam a vergonha e a leviandade, degenerando o caráter, contribuindo para a degradação tanto do corpo, quanto do espírito. Pergunto-me! Com que espécie de embriaguez as filhas de Lot estavam quando realizaram este ato? Será que elas estavam igualmente, como seu pai, embriagadas pelo líquido do fruto da videira ou por outra substância? Talvez isso possa ser uma incógnita até mesmo para aqueles que estudam os textos bíblicos.

Voltando novamente a citar os estabelecimentos comerciais, atualmente os bares estão mais sofisticados em termos de opções para aqueles que degustam as bebidas alcóolicas, pois oferecem cardápios variados, além de nos finais de semana, promoverem shows com música ao vivo. Têm também um seleto grupo de frequentadores assíduos e afugentam aqueles que, de vez em quando, perturbam sua clientela, pedindo cachaça. Preconceito social? Penso que talvez seus proprietários queiram apenas conservar a clientela fiel, além, é claro, de manter o lugar sadio e livre destes transtornos.

Não quero aqui demonstrar uma espécie de preconceito ou segregação, mas como citei, de preservar o ambiente, pois sabemos que a pessoa mais importante para o bar é o cliente. Acompanho frequentemente esses casos, porque sou frequentador de um desses estabelecimentos comerciais, aonde vou duas ou três vezes ao mês. Lá observo situações diversas do comportamento desses atores sociais.

Posso até dizer que minhas andanças nestes lugares serviram de laboratório para a minha pesquisa. Devo salientar que tais vexames, escândalos e distúrbios mentais proporcionados pelo álcool nos bares não estão apenas vinculados a uma classe, mas todas inseridas no meio social como já relatei. Tenho certeza que, como uma doença, o alcoolismo não escolhe classe ou posição social, já é algo arraigado dentro das sociedades e que durante séculos evolui substancialmente. Nesse sentido, percebemos “‘pela ótica vigente’, que as doenças causadas pelo alcoolismo estão relacionadas, em geral, à área de saúde mental, porquanto esta é a praxe do sistema de saúde não só entre nós, como também na grande maioria dos países desenvolvidos”. (LIMA, José Mauro de. Op. cit., p. 112.)

1.1. “CABARÉ”: PONTO DE ENCONTRO PARA DIVERSÃO, PROSTITUIÇÃO E RIXAS.
Algo que recordo com lucidez é a antiga “Rua do Curral”, local onde se localizava o chamado Cabaré de Ipu. Em 1975, nós morávamos a uns 300 metros desse lugar e às vezes tínhamos que passar bem perto dele, principalmente à noite quando retornava do passeio no centro ou durante os festejos de São Sebastião e São Francisco. É claro que no ano citado, não tinha a mínima condição de me lembrar de algo, colhi estes relatos dos meus pais que ao longo dos anos contaram para nós onde morávamos e como era a vida naquele tempo. As imagens daquela década estão bem vivas na minha memória, a partir de 1978, pois estava com cinco anos de idade e vem à lembrança alguns episódios, em especial a Copa do Mundo da Argentina. Na ocasião não tínhamos televisão e íamos assistir aos jogos na casa de um tio. Em seu trabalho de dissertação o historiador ipuense, Vitorino Filho destaca o nascimento do prostibulo na rua citada.

“O meretrício foi erguido próximo ao “curral do açougue do matadouro”, onde eram abatidos os animais e ficava o matadouro e açougue da cidade. Era composto por quatro currais em quadro. Se de manhã se ia naquele local para fazer a compra da “ração diária”, ir ao “curral do açougue” a noite tinha significado da prática do sexo. Para lá diariamente acorriam os viajante e rapazes prontos para mostrar e gastar o seu vigor.” (FILHO, Vitorino. Op. cit., p. 103.)

Confesso que até os meus 12 anos, tinha receio de passar por aquela rua, pois em algumas ocasiões testemunhava a briga entre os bêbados e as discussões das mulheres da vida, proferindo os mais cabeludos palavrões dirigidos às colegas de profissão. Ficava aliviado ao me distanciar daquele lugar. À noite era ainda pior, lembro-me bem do ano de 1980, no mês de outubro, durante o novenário de São Francisco. Havia as bebedeiras, as gargalhadas, as danças de homens que gostavam de frequentar aquele antro. Por impulso, olhávamos para o espetáculo: as danças eram seguidas de alguns “amassos” obscenos. Alguns só dançavam apalpando as nádegas da parceira, com um cigarro na boca, esfumaçando-os, e subitamente virava o rosto. Algo que me intrigava, lógico, na minha inocência, era ver algumas mulheres dançando com outras. Realmente não entendia porque aquilo ocorria e ficava tímido ao perguntar para os meus pais o porquê daquele estranho comportamento, mas acho que até com certo temor de ser repreendido, resolvia ficar calado. Assim Margareth Rago nos apresenta em seu trabalho “Prostituição e Códigos da Sexualidade feminina em São Paulo” que.

“No bordel, buscava-se não apenas a transgressão dos comportamentos moralmente sancionados, mas os excessos, as fugas, os êxtases, os prazeres e as orgias. É na literatura que encontramos um caminho para conhecer a dimensão fundamental da subjetividade, excluída de outras fontes documentais. O mistério do cabaré, romance de Amando Caiuby, registra a excitação geral do cabaré enfumaçado, onde a personagem Maria Alice procura ingressar na prostituição. No Maxim’s, que efetivamente existira na Rua Xavier Toledo, meretrizes excitadas cercavam homens embriagados, atiçando beijos e abraços.” (RAGO, Margareth. Os prazeres da noite: prostituição e códigos da sexualidade feminina em São Paulo, 1890– 1930, 2ª ed., São Paulo: Paz e Terra, 2008, p. 231.)

Nas cidades do interior é comum à maioria das pessoas ter conhecimento da “vida alheia”. É algo corriqueiro às pequenas sociedades. As fofocas, por exemplo, andam mais que o vento. São nessas conversações que sem querer as pessoas escutam, fingindo não ouvir. Neste período, início da década de 1980, havia um chafariz no Bairro da Caixa D’agua, local este que abrigava o famoso prostíbulo.

Quando íamos buscar água num dia desses, escutei algumas mulheres falando baixinho dizendo nesses termos. “Tu sabes da última? Fulano está amancebado com uma rapariga, a mulher dele descobriu e foi a maior briga ontem à noite”. Era algo comum dentro do âmbito familiar acontecer certos conflitos como as brigas de casais por causa da suposta traição, pois muitas vezes estes trabalhadores, pais de família, sentiam a necessidade de satisfazer seus vícios, tratando-se do álcool e suas taras sexuais fora de casa. Conforme Iramar Miranda, historiador ipuense.

“E o homem achava-se entre estes dois parâmetros da sociedade. Sentia a necessidade de lançar suas taras pecaminosas, seus intuitos sexuais devassos e neste sentido, a meretriz desempenhava este ofício e com propriedade e a convivência no lar, com uma vida sexual nem sempre fugindo a ordem do patriarcalismo, ou seja, a mulher esposa servindo apenas como companheira e fonte de procriação, como bem determinava a passagem bíblica da criação.” (BARROS, Antônio Iramar Miranda. Op. cit.,p. 48)

Já fazia parte da rotina de alguns homens da cidade de Ipu praticar algo desta natureza, buscar diversão no cabaré. Este comportamento é próprio de quase todas as classes sociais em especial as abastadas, pois era comum em alguma época jovem mancebo terem suas primeiras experiências sexuais com uma “mulher da vida”.

O próprio pai patrocinava a iniciação dos prazeres da carne, talvez até mesmo para testar a masculinidade do filho varão e posteriormente a iniciação também no vício do álcool. Frequentemente os homens buscavam o inebriante prazer no aconchego nos braços de uma profissional do sexo, às vezes, sem se importar com seu porte físico, alta, magra, baixa ou gorda. Consequentemente este indivíduo, de certa forma, já se tornava “amigável” da concubina até mesmo de tê-la como uma espécie de segunda mulher. Este fato era frequente durante a vida do prostíbulo e testemunhava pais de família no interior dos bares bebendo, ouvindo músicas típicas do ambiente com um cigarro na mão, afagando os cabelos das mulheres, beijando-as sem se importar com as consequências futuras. Segundo Margareth Rago.

“A caftina administrava um pequeno negócio, na verdade. Empregava meretrizes de nacionalidades e idades variadas, garçons, arrumadeiras, músicos, porteiros, meninos de recados. Como já trabalhava como prostituta conhecia bem os problemas que uma jovem poderia enfrentar: confidente e conselheira, às vezes, realizava funções de ginecologista e prestava os primeiros socorros. É claro que mantinha um alto grau de controle e exploração sobre as “meninas”, como mostra satiricamente o autor, ou mesmo a imprensa. Controlava os mínimos gestos das “alunas” do bordel, a quem introduzia nos códigos da mundanidade: ensinava como agradar um freguês, como se vestir atraentemente, como ter gestos e atitudes charmosos, e exigia que as prostitutas incentivassem seus pares a consumir o máximo possível. No entanto ela procurava “glamourizar” a profissão, especialmente nos bordeis de luxo: organizava e enfeitava o espaço interno, a fim de criar todo um clima de erotismo e fantasia, providenciava um bom estoque de bebidas, reciclava as prostitutas cujos os serviços oferecia, contratava músicos de qualidade, que completavam seus rendimentos também tocando nos bordeis.” (RAGO, Margareth. Op. cit., p. 204 -205.)

Muitos iam ao cabaré em busca de algo que não encontrava em casa, pois sabemos na cultura social que a esposa era mais recatada em certos hábitos ligados ao sexo. Institivamente o prostíbulo era o lugar ideal para a prática sexual de cunho fora dos padrões de uma família cristã. Mas o paternalismo prevalecia dentro da sociedade e a mulher tinha que se sujeitar aos caprichos do marido.

O indivíduo para satisfazer o próprio ego ia até o último centavo, gastando seu dinheiro de homem trabalhador, em nome da luxúria. Isto era notório naquela época quando em certos momentos havia briga de casais, onde a mulher reivindicava o “pão” e roupa ou até mesmo o dinheiro para as compras da semana, cifras gastas na noite anterior com bebedeiras, mulheres até mesmo nos famosos jogos de azar como o baralho, pois antes mesmo da diversão, um joguinho para arriscar a sorte.
Em certos momentos para suas esposas não tomarem conhecimentos sobre seu paradeiro, nos finais de semana, o indivíduo, após a labuta, se dirigia para o cabaré, evitando qualquer tipo de desavença dentro do lar. Como afirma Santos.

“O ser trabalhador-provedor vinculava-se à paternidade. O pai, além de provedor da alimentação abrigo e amparo, deveria ser também exemplo, o norte, a bússola. As denominações de bom pai, pai honrado, pai provedor se encontrava sobrepostas às evidências do que seja o masculino, reforçavam a imagem que socialmente se esperava de um homem.” (MATOS, Maria Izilda. Op. cit., p. 42.)

As casas que abrigavam os compartimentos ou quartos para o deleite eram rústicas e paupérrimos, se comparados com os motéis de hoje, bem sofisticados, mas para esta prática adúltera. Durante a época bastava apenas uma cama e quatro paredes diferentes daqueles bordeis de luxo da belle époque brasileira do entre séculos, ou até mesmo os becos escuros, devido à iluminação precária da época, pois se tratava da periferia e também por não possuir na época uma densidade demográfica mais expressiva como nos dias atuais.

Naquele cabaré da cidade de Ipu se via de tudo desde conflitos de clientes e certos cafetões ou cafetinas, que se consideravam protetores dessas mulheres, a confusões geradas por ciúmes das mulheres-damas que pouco se importavam de quem levaria a melhor, se preocupando apenas em lucrar em troca do prazer e também dar lucro a casa na consumação das bebidas alcoólicas, algo que ao longo dos anos iria produzir uma dependência química. Mas existiam também conflitos gerados entre as mulheres como resultado da perda de um cliente para uma colega de profissão, nada pessoal, apenas negócios! Não sabemos mais detalhadamente sobre a origem de certas mulheres nesse ramo.
A grande maioria era composta de mulheres vinculadas às classes mais humildes. Muitas vezes, por manterem relações sexuais antes do casamento, eram expulsas de seus lares, procurando, assim, abrigo nas casas noturnas, dando início ao ofício de prostituta: uma forma também de ganhar dinheiro fácil, dada às dificuldades de emprego da época e a “macula social”. Como afirma Margareth Rago.

“[...] enquanto mulheres de condição humilde, filhas de proletários, operárias de fabricas, costureiras, lavadeiras, eram perseguidas violentamente pelas autoridades públicas, muitas vezes, por estarem complementando um salário miserável, a prostituição de luxo imperava soberana com o apoio dos homens abastados. A este sistema o dr. Alberto Seabra atribuía também a origem do rufião, “protetor da mulher contra a politica de costumes”. Apontava os inconvenientes das casas de tolerância, onde os proprietários obrigavam as prostitutas a aumentar constantemente a taxa de consumo de bebidas alcoólicas com objetivo exclusivo de lucro, debilitando sua saúde.” (RAGO, Margareth. Op. cit., p. 152.

Concorrência que com certeza poderia levar a ferimentos graves e até mesmo ao óbito, “viva o capitalismo”! Como esclarece Gilberto Dimenstein, “[...] nas brigas entre prostitutas, é comum o emprego de navalha, o gesto supremo da raiva - afinal, o rosto é o primeiro atrativo da prostituta. É a tentativa de inviabilizar a fonte da beleza que significa naquele mundo, sua fonte de renda” (DIMENSTEIN. Gilbert. A Prostituição das Meninas Escravas no Brasil. 14ª. ed. São Paulo, Ática, 1992, p.42.)

Recordo-me das casas noturnas e das músicas que tocavam lá. O som delas rasgava quase toda a madrugada. Quem morava a pouco mais de 200 metros da “zona” ouvia as canções que dia após dia variavam: ia daqueles cantadas por artistas da canção popular, até as internacionais.
Geralmente estas canções eram de pessoas bem conhecidas no mundo artístico musical como de Altemar Dutra, Evaldo Braga, Waldick Soriano, Reginaldo Rossi, Genival Santos, Diana, Nubia Lafayette, Bartô Galerno, Odair José, o disco da Década Explosiva e até Júlio Iglesias. Por ouvir frequentemente, já sabíamos a faixa musical seguinte do disco.

Maria Izilda Santos de Matos explora bem esta temática de que as músicas eram indispensáveis para o ambiente, especialmente aquelas que tinham como enredo o amor, a desilusão, solidão, entre outros títulos, fazendo com que o ébrio se tornasse cada vez mais boêmio e apaixonado, pois as tais canções provocavam nestas pessoas um sentimento profundo de gozo pela noite. A autora cita dois compositores deste gênero musical, Vicente Celestino e Lupicínio Rodrigues:

“Para a presente análise foram selecionadas as canções de dois compositores: Vicente Celestino, que no período em foco fez grande sucesso com a música O Ébrio, além de ter em seu repertório outras músicas com a mesma temática: e Lupicínio Rodrigues, cuja ampla produção focaliza a boemia, a figura do ébrio, seus espaços e suas relações.” (MATOS, Maria Izilda Santos de. Op. cit., p. 80-81.)

Na noite, uma garrafa, a luz negra e uma bela acompanhante para o seu deleite e para satisfazer seus instintos carnais. O homem não queria mais nada, apenas regozijar daquele estonteante e delirante momento de prazer. Se me lembro bem, havia até casos de homens que se apaixonarem pela meretriz, tornando-a sua esposa.

Há relatos de um caso onde um indivíduo desses, frequentador do prostíbulo, se apaixonou por uma dessas mulheres e foi viver com ela longe da nossa cidade, não sei se por receio do que as pessoas iriam pensar a respeito desta suposta união, dado o conservadorismo da sociedade.
Qualquer coisa do gênero era motivo de repulsa, especialmente das senhoras especialmente aquela católicas mais fervorosas. Este caso é similar àquela música do cantor e compositor Odair José: “Eu vou tirar você deste lugar, eu vou levar você pra ficar comigo e não me interessa, o que os outros vão pensar”. (EU VOU TIRAR VOCÊ DESTE LUGAR. Odair José. Gravadora Philips, 1973.)

Atualmente quando ouço alguma canção daquele tempo, sempre me vem a memória do bairro, das pessoas e é claro dos atores sociais que integravam o prostíbulo da cidade de Ipu. Às vezes pela alta madrugada, quando estes indivíduos voltavam para os seus lares, acordavam toda vizinhança cantando desafinados: “Se quiser fumar eu fumo, se quiser beber eu bebo, não interessa a ninguém” [...] (LAMA, Núbia Lafayette. Gravadora CBS, 1974.) ou soltando um turbilhão de palavrões, o que ocorria com frequência por volta de 1979 a 1987, quando findou-se em definitivo o “antro da perdição”, como as pessoas da época mencionava o lugar.

As duas casas noturnas mais famosas da época, bem frequentadas, eram o bar do “Chico do Grude” e o bar da Dona “Sergina”, bem no coração do cabaré, um de frente para o outro. Entre eles, bem no meio da rua, existia uma velha Timbaúba. Esta se manteve de pé até a década de 2000, quando veio ao chão.

Ouvíamos a barulheira que ecoava do interior do bar. Não eram raras as famosas rixas, bem como as marcas deixadas pelas cenas de violência da noite anterior, como as manchas de sangue estampadas na calçada, como resultado das brigas.

Durante a madrugada, se escutava passos apressados de alguém, como se estivesse em fuga, talvez fugindo de alguma briga ou algo pior. Muitos iam até suas casas apenas para pegar algum tipo de arma, como era de costumes, para se vigar de seu desafeto ou de alguma agressão física.
O repórter Gilberto Dimenstein explora no seu trabalho “Meninas da Noite” relatos sobre a prostituição brasileira, especialmente nas Regiões do Meio Norte e a Região Amazônica. “[...] Lá fora, o barulho de carros, gritos de mulheres. Cenário típico das zonas de meretrício: meninas de saia mínimas e provocantes. Bêbados na calçada, mulheres sentadas no meio fio. Palavrões, brigas, sedução forçada e artificial. Barganhas sobre o valor do corpo” (DIMENSTEIN, Gilberto. Op. cit., p.18). A partir desses pressupostos gerava-se outro conflito e então nasciam às famosas brigas entre famílias, onde alguns parentes tomavam as dores dos agredidos, podendo haver alguma espécie de “te pego depois”. Por isso, quando estes indivíduos saiam de seus lares para se divertirem, portavam uma faca. Se acaso encontrassem algum desafeto, pois estes indivíduos de certa forma temiam pela vida, podiam fazer o uso da arma branca como proteção.

Essas rixas eram generalizadas por contendas ainda não resolvidas, pois durante a época eram comuns os atritos por motivos banais ou conflitos familiares, até mesmo pela suposta disputa por uma mulher de cabaré. Geralmente as armas usadas pelos desafetos eram fragmentos de garrafas ou algum tipo de arma branca (facas, peixeiras e até facões), como já foi relatado. Poucos usavam armas de fogo na época por causa do acesso a tais instrumentos bélicos, diferentemente dos dias atuais, onde é fácil sua aquisição. Posso acrescentar que a violência não era apenas privilégio do gênero masculino. As profissionais do sexo também eram vítimas de seus parceiros e comumente apanhavam, não sei por qual razão, pois não era um lugar para diversão? O que levaria um indivíduo às praticas violentas se na verdade procuravam o “amor” neste ambiente de deleite e luxuria? Recorro às palavras de Margareth Rago que diz: “[...], portanto, a prostituta aparece como vítima das garras do macho corrupto e insaciável [...]” (RAGO, Margareth. Op. cit., p. 236.)

Creio que o motivo para a tal violência contra estas mulheres era nada mais do que uma embriaguez em “alto grau”. O agressor, munido de alguma raiva, descontava este sentimento na sua parceira. Como era de se esperar a mulher se dirigia a delegacia mais próxima e relatava a agressão comumente expondo sua vida desregrada em público e, lógico, perdendo a reputação. A polícia era acionada para prender o autor da agressão, mas devo dizer que estes casos envolvendo a amante era, na maioria das vezes, negligenciada pelas autoridades por tratar-se de uma mulher da vida, cabendo ao agressor escutar apenas o sermão do Senhor delegado e nada mais. Nos autos nada mais consta.

Foi o que colhi, pois não encontrei na delegacia ou no fórum, prisões envolvendo violência por influencia do álcool, apenas aquelas em função da embriaguez ao volante, que iremos destacar no terceiro capítulo, algo que mesmo com as campanhas de conscientização os acidentes continuam como um grave problema no Brasil.
Quando se tratava de alguém importante na escala social, o problema era abafado, pois apesar desses homens frequentarem o cabaré tinha certo respaldo com a polícia local. As mulheres, neste caso, ficaram desamparadas pela lei. O que lhes restavam eram as sequelas da agressão e os hematomas visíveis nos seus corpos, como o olho roxo, dentes quebrados e marcas nas outras partes do corpo, coxas, membros e nádegas.

Nessas minhas andanças da escola para casa ouvi uma delas se queixando à outra colega a respeito do seu parceiro, falando nestes termos: “Da próxima vez vou colocar uma faca debaixo da cama” seria um “olho por olho e dente por dente”? É o prazer pode ser perigoso nessas ocasiões e não seria nenhuma novidade se acontecesse algo desta natureza a esses indivíduos como um suposto esfaqueamento ou até mesmo uma castração.
Esta fúria seria talvez por uma impotência sexual causada pela embriaguez como afirma Pedro Cardoso filho, que o álcool em dosagens exageradas pode reduzir sua virilidade quanto à função sexual. “[...] Apresenta-se seriamente comprometida pela ação prolongada do álcool, desenvolvendo no alcoólatra uma redução de esperma, devido a sua ação nos testículos, ao diminuir a produção de testosterona, o que provoca impotência no homem”. (FILHO, Pedro Cardoso. Op. cit., p. 67.)

Nesse contexto, podemos identificar o alcoolismo como o incentivador e culpado para tais conflitos e, claro, a masculinidade de alguns contendores, pois esta droga modifica a índole do indivíduo e pode torná-lo um sujeito dócil, amável ou extremamente violento capaz de cometer delitos como agressões e assassinatos, na sua maioria por razões inexplicáveis caso que irei relatar durante este trabalho. Não tenho lembrança de delito como assassinato cometido durante a época em que o prostíbulo ainda estava na ativa, mas a violência no caso de alguém sair ferido era rotineiro.
Ouvi rumores de que alguns desafetos amarravam as suas camisas e iniciavam uma espécie de desafio, como explica Chalhoub a respeito desses conflitos que rondavam o cotidiano das pessoas que frequentavam certos ambientes da belle époque do Rio de Janeiro. Estes tais desafios na cidade de Ipu eram estanhos como citado. No desafio um tentava atingir o outro com um golpe de faca. Quando supostamente isto acontecia de imediato o vencedor cortava a sua camisa e fugia da cena, livrando-se do flagrante. Estes fatos aconteciam principalmente nos finais de semana e como citei geralmente quando ocorria algo desta natureza a cidade já havia tomado conhecimento do fato.

“O desafio significava que as tensões chegaram a um tal ponto que só podem ser resolvidas com a derrota flagrante de um dos rixosos. Todo o período de escalada de tensões é mais ou menos marcado pela valorização da linguagem e dos preconceitos machistas, mas, no momento do desafio - o momento da troca de palavras e insultos que precede imediatamente o desfecho -, os conceitos machistas de coragem pessoal e destemor contaminam interinamente o ambiente.” (CHALHOUB, Sidney. Op. cit., p. 323.)

São fatos rotineiros de violência na cidade de Ipu no final da década de 1970 e do início da de 1980 em relação à embriaguez. Costumadamente estas contendas envolviam não apenas homens casados, mas também os solteiros. Normalmente eram rixas que também atingiam seus familiares e amigos. Porém, não era um conflito duradouro porque normalmente estas pessoas deixavam a cidade migrando para outras regiões do país, em especial para a região Sudeste (Rio de Janeiro e São Paulo).
Particularmente entendo que estes transtornos históricos a respeito da embriaguez são algo que está arraigado em todas as sociedades e na cidade do Ipu não poderia ser diferente, pois são fatores que fazem parte do social, como frequentar os prostíbulos e ter uma vida munida de luxurias mesmo que tal artifício possa degenerar seu caráter de não possuir uma vida regrada e contribuir para a fragmentação da sua conduta e moral. Nesse caso, não há limitações para o vício, seja ele o alcoolismo ou a prostituição, causadores de infortúnios para a miserável vida de seus praticantes.
Em certas ocasiões, o individuo tratava a “filial”, tão bem quanto a “matriz”, tudo em nome do prazer e da luxúria, como nos informa Maria Izilda Santos de Matos: “O vício levou a descer todos os degraus da escala social, reforçando a imagem de que o alcoolismo leva ao declínio, à miséria, à perda de referências; perdeu o nome, à família e foi desprezado por esta, já que o alcoolismo envergonha a todos; é a perda da identidade, da moral e até da masculinidade[...]”. (MATOS, Maria Izilda Santos de. Op. cit., p. 66.)

No final da primeira metade da década de 1980 foi marcante em relação àquele lugar até me acostumei em trafegar por ali porque à medida que os anos iam passando, o fluxo de frequentadores já não era tão expressivos como na segunda metade da década de 1970 ao início dos anos de 1980, onde alguns pequenos bares, casas, que existiam próximos aos dois mais famosos (Dona Sergina e Chico do Grude).

Durante os anos vindouros, aos poucos iam se transformando em residências pelas próprias prostitutas, que por causa, talvez do cansaço de inúmeras noites em claro ou chegando a uma idade perto dos 50 anos, se aposentavam da profissão mais antiga do mundo, deixando saudosas lembranças daqueles frequentadores assíduos do Cabaré da Rua do Curral, que recebeu este nome devido ali existir o antigo matadouro de Ipu, como citou Vitorino Filho. Coincidentemente era mais frequentado pelos marchantes.
Ao término do ano de 1987, a Prefeitura Municipal de Ipu, resolve desapropriar algumas casas onde funcionavam os bares do antigo cabaré, seria uma espécie de higienização do local? Este episódio aconteceu na administração do ex-prefeito Francisco Eufrásio Mororó (1983-1988), que decidiu pela desapropriação para a construção de um ginásio poliesportivo.

E imitando o samba “Saudosa Maloca” (SAUDOSA MALOCA. Demônios da Garoa, ODEON (1957). de Adoniram Barbosa e interpretado pelo conjunto mais antigo do mundo, Os Demônios da Garoa, nós “íamos apreciar a demolição”.
Um fato curioso que me chamou atenção foi quando uma dessas máquinas pesadas de nome caterpillar se dirigia a uma residência para executar o trabalho quando súbito um rapaz de apelido “Zé Gabiru”, inclusive um primo de 3º grau salta em frente à máquina com uma foice na mão cujo objetivo era conter o avanço da máquina e aos gritos dizendo que não ia deixar o “monstro de aço” destruir a sua casa.

Foi preciso chamar a polícia para resolver a contenda, tornando inválido seu ato heroico, realmente um caso daqueles em que o indivíduo contido por uma fúria incontrolável tenta salvar o único bem que possuía ou o seu abrigo e o da família.

Uma vez ou outra quando passava por aquele lugar parava um pouco para visualizar as ruínas das antigas casas. Por volta de fevereiro de 1988, a Empresa Jota Dois iniciou a construção do ginásio, dando um novo cenário ao Bairro da Caixa D’água.
Voltando aos bares citados do cabaré, nesse mesmo período funcionava apenas como pequenos estabelecimentos comerciais para vender algum tipo de bebida, (refrigerantes, cervejas e cachaça) abolindo de vez a prostituição.
Atualmente o espaço é constituído pelo ginásio poliesportivo, a antiga residência do Senhor Chico do Grude (falecido), algumas famílias de classe média da cidade de Ipu, modificando o nome da tradicional Rua do Curral para Rua Padre Mororó. Conforme Guido Fonseca: “Talvez por esse motivo seja que, após a extinção da zona, essa rua envergonhada, tratou logo de mudar de nome”. (FONSECA, Guido. A prostituição em São Paulo, 1ª ed. Universitária, São Paulo, 1982, p. 32.) E por incrível que pareça o que foi conservado foi o antigo bar da Dona Sergina (ainda viva), embora não funcione, mas conserva ainda a sua estrutura física, cercada por muros, onde esta senhora vive numa espécie de ostracismo, sendo raras as suas aparições.

Local onde funcionava o Bar do Senhor Chico do grude e atualmente funciona uma pequena metalúrgica tendo como proprietário, Francisco De Assis “novinho”, um neto que também herdou este ofício do próprio.
As noites dentro do seu estabelecimento eram festivas, com muita música e a clientela em busca de diversão, consumação de álcool e o sexo. Concorria com o outro bar (Chico do Grude). Mas num sentido, tratava-se de uma concorrência sadia, pois não havia rancor entre os proprietários e a diversão, como de costume, especialmente nos finais de semana, ia toda madrugada, já próximo ao alvorecer, pois ouvíamos as músicas madrugada adentro. Às vezes, além das músicas tocadas nas chamadas radiolas, havia shows ao vivo. Contratam-se sanfoneiros que realizam sambas, pois as pessoas até o final da década de 1970 não chamavam estes eventos de forrós ou festas, mas de samba, acho que devido a uma tradição sulista que algumas pessoas interiorizavam quando iam para os grandes centros ou até mesmo em contato com pessoas que migravam do sul para o nordeste.

CAPITULO II
PERSONAGENS DE IPU E SUAS EMBRIAGUEZES
No princípio da pesquisa, abordamos a história do surgimento do álcool e as civilizações que iniciaram esta prática, isso porque consideramos importante para escrever sobre a história da embriaguez na cidade de Ipu, pesquisar os primórdios dessa prática. Ver, no início, como se deu a introdução de bebidas alcoólicas na humanidade, para só, então, investigar a embriaguez na cidade de Ipu, os bares, o cabaré e comportamentos das pessoas que frequentavam esses ambientes.

Neste capítulo reservamos para relatar casos envolvendo pessoas que se relacionavam com a embriaguez exagerada, critérios que os rotulava, seus perfis e os espaços que frequentavam. As configurações são inexistentes, pois estes atores sociais eram marcados pelo individualismo, sempre bebendo solitários como se houvesse apenas este hábito na vida. Como é típico de toda cidade interiorana, existirem pessoas desprovidas de qualquer ocupação a não ser viver na ociosidade sem se preocupar com o amanhã, o que vai comer e vestir, sempre vivendo à margem da sociedade. Porém, devo ressaltar que tais indivíduos outrora exerceram algum ofício, mas que em detrimento do abuso excessivo do álcool, caíram no vício. Seres desprezados pela sociedade e que levam uma vida desregrada, totalmente fora dos padrões da conduta e das normas estabelecidas no meio em que vive.

Na cidade do Ipu não poderia ser diferente, pois a cada década surgem personagens e tipos que são marcas registradas em situações embaraçosas e que são às vezes engraçadas, embora não ache graça nenhuma alguém entrar de cabeça num vício e minimizar a sua existência, segundo Silveira: “O uso do álcool traz consigo inúmeros problemas. Um deles, o mais conhecido, é o alcoolismo, que se relaciona com um consumo crônico de álcool”. (SILVEIRA, Ajax. C. Op. cit., p. 16.)

Durante uns 32 anos, testemunhei casos envolvendo pessoas que abusaram desta substância psicoativa e ao mesmo tempo prazerosa. Entes que perdiam a linha por causa dos seus excessos e aos poucos iam se tornando marginalizados, excluídos, segregados e vivendo numa espécie de submundo, sem nenhuma perspectiva de vida, porque já se tornara um alcóolatra em potencial.
Na cidade de Ipu criou-se então um círculo vicioso de várias pessoas aderirem ao alcoolismo, mesmo aquelas que com seus empregos formais tenderam a enveredar por esta trilha, a consumação alcoólica sem moderação.

Pessoas que no estado sóbrio eram sérias, trabalhadoras, porém, ao se envolverem com o álcool, se tornavam alegres, simpáticas. Outras antipáticas, violentas e sem nenhum pudor degenerando sua própria imagem perante a sociedade, seria uma espécie de “médico e o monstro”? Muitas vezes devido ao seu corpo não se aguentar mais em pé, dormiam no meio da rua e como de costume às vezes as esposas e os filhos tentavam inutilmente acordá-lo do seu sono alcóolico. Um dos lugares preferidos para as quedas era, sem sombra de dúvida, a entrada do mercado público, no bar ou nos boxes.
A história da embriaguez na cidade de Ipu, no meu pensar, não é diferente de outras cidades do interior, como citei no início deste subitem, pois a conjuntura entre 1978 e 2014 apresenta fatos repetidos dentro da sociedade ipuense, ligadas ao consumo excessivo de álcool, permeando entre os diversos aspectos. Por isso, o alcoolismo ou a embriaguez traz em seu bojo uma experiência negativa, embora se encontre prazer na degustação. Aquele que faz uso da bebida não se policia em apenas degustar, mas acaba por ir até a última gota do litro ou da garrafa. Durante a embriaguez a consciência se esvaia permanecendo em seu lugar uma espécie de demência, levando o usuário a fazer coisas impensáveis, como, em algumas ocasiões, fazer as necessidades fisiológicas em lugar público exibindo suas genitálias, causando repulsa a quem testemunhava a cena. Maria Izilda Santos de Matos expõe os diversos aspectos negativos que uma embriaguez exagerada produz no indivíduo que não mantém um controle do vício: “O rebaixamento moral maior viria na fase seguinte. Fora de si, o ébrio caia no torpor e sono, era o momento em que “o desgraçado” não distinguia mais o público do privado, fazendo da calçada, da rua, do cabaré, do botequim, do banco da praça pública, o lugar do seu sono”. (MATOS, Maria Izilda Santos de. Op. cit., p. 60.)

Tradicionalmente na cidade de Ipu os dias em que se aglomeram estes tipos sociais se dão entre a sexta-feira e o sábado, dias de grande feira na cidade, no entorno do mercado público. Nos botequins próximos ao centro, mesmo cedo, por volta das 09h00, alguns já se encontram em estado de embriaguez e não é difícil notar os consumidores de cachaça, principalmente aqueles que têm o ofício de carreteiro ou carregador. Seus semblantes são horrendos: olhos vermelhos, cabelos despenteados, cara inchada devido ao constante uso da cachaça, e, como todo alcóolatra, a pele ressecada, parecendo a de um camaleão. Geralmente adoecem ou suas forças são dizimadas pelo o álcool, conforme afirma o psicólogo Ross Fishman.

“À curto prazo, o corpo é capaz apenas de se ajustar aos efeitos do álcool. Depois certo tempo, contudo o organismo torna-se incapaz de manter seu equilíbrio. É nessa etapa que os efeitos do álcool se manifestam de forma mais intensa. Muitas partes do seu corpo tornam-se inflamadas ou intumescidas. (...) São efeitos comuns do alcoolismo, esterilidade, impotência, cirrose (deteriorização das células do fígado causada por sobrecarga e excesso de toxinas).” (FISHMAN, Ross. Op. cit., p.43.)

As pessoas citadas a seguir são atores sociais que marcaram a história da embriaguez na cidade de Ipu, cada um com uma característica peculiar. Procuramos fazer uma pequena biografia destas pessoas, destacando seu modo de ser, como o comportamento, especialmente no estado ébrio, como também o seu estado sóbrio, pois era natural que agissem de forma diferente em resultado de seus estados ébrios. Buscamos mostrar os ambientes que frequentavam, as suas peripécias, que provocavam riso ou repulsa de quem testemunhava a situação embaraçosa em que se envolviam. Quero dizer que não faço um juízo de valor desses personagens, como a população, muitas vezes de forma preconceituosa, costuma fazer. O único mal que essas pessoas proporcionavam era contra si próprios.

DESCON (O CHEIROSO)
Descon, ou Dez Contos era o apelido de um homem que, quando se embriagava, era uma graça. Em seu estado psicoativo saía gritando, “cheiroso!” Não sei qual o motivo deste seu jargão, mas as crianças se divertiam com esta mania de gritar. Era um grito semi-soprano, que quem estivesse próximo, se aborrecia com a sua voz. Em outras ocasiões proferia alguns palavrões, incomodando quem os ouvia, típico dos bêbados em alto estado de embriaguez. Algumas pessoas associavam este seu comportamento a uma espécie de demência.
Outra mania típica desta pessoa era colocar um dos pés no pescoço. Algumas pessoas diziam que ele era demente devido a este seu comportamento esdrúxulo quando estava de porre. Incomodava principalmente as senhoras, que tinham um repúdio àqueles que pejorativamente atribuíam o nome de cachaceiro. Ele tinha o corpo saliente, por isso praticava esta espécie de contorcionismo (o pé no pescoço). Rara era as vezes se podia vê-lo sóbrio. Andava sempre com uma garrafinha para “se abastecer”, quando bebia o último gole. Na época ele já devia ter uns 45 anos e, para minha surpresa, ainda se encontra entre nós. De alcóolatra tornou-se regenerado, largando o vicio há mais de 20 anos. O álcool afeta de maneira avassaladora o sistema nervoso. Segundo Eliana Sales:

“Com relação ao consumo de bebidas alcoólicas os seus trabalhos detalhavam os efeitos do álcool no sistema nervoso, demonstrando que o uso da substância provoca anomalias cerebrais e outras séries de manifestações mórbidas profundamente perturbadoras do estado mental do indivíduo alcoolizado, paralisando seus centros de juízos e da reflexão, privando-o da consciência e da liberdade dos seus próprios atos, agindo de forma impulsiva por ideias que o álcool despertava e/ou elaborava. A alcoolização era assim, aproximava a loucura, na medida em que ambas distinguia-se pela ausência de consciência de seus atos praticados.” (SALES, Eliana. Op. cit., p. 182.)

Hoje goza de uns 75 anos, porém, foi atingido por uma catarata e perdeu uma expressiva porcentagem da sua visão. É raro vermos no convívio social, pois a abstenção foi o suficiente para prorrogar a sua vida. Neste período a maioria da bebida destilada consumida pelos consumidores era a cachaça artesanal, produzida nos alambiques da região serrana do Ipu. Por isso era chamada de “cachaça serrana” ou a “pôde” devido ao cheiro forte desta cachaça. Pouco se ouvia falar de aguardentes industriais como a Ypióca, Pirassununga, estas só surgiram a partir de 1984, quando estes produtos da indústria alcóolica iniciaram a sua comercialização na cidade do Ipu.

ZÉ CAFÉ (O VENDEDOR DE ÁGUA)
O “Zé Café”, que não dispensava uma boa tragada da branquinha, era outro personagem que criou fama por causa das embriaguezes constantes. Era um Homem de uns 1,80m, com as feições de um índio, pardo e com cabelos até os ombros. Costumava colocar água para a minha avó e outras pessoas. Vivia deste ofício. Era um frequentador assíduo do bar do Sr. Mozar, pois quando não estava vendendo água, lá estava ele degustando uma cachaça. Não sei como aguentava beber quase todo o dia. O Senhor “Zé Café” teve um desfecho trágico, isso por volta do mês de dezembro de 1986, pois numa dessas suas embriaguezes, num final de tarde, resolveu tirar uma sesta embaixo de um caminhão. Pouco depois o motorista deu a partida no veículo e um dos pneus atingiu a sua cabeça, levando-o a óbito. Realmente um fim terrível e um dia estranho para a cidade, pois não estava acostumado com este tipo de tragédia.

ROBERTO CARLOS (O “CANTOR”)
O “Roberto Carlos” é outro personagem típico das histórias sobre embriaguez na cidade do Ipu. Não tinha ocupação formal ou informal. Não sei onde arranjava dinheiro para beber, suspeito que ganhava algum dinheiro pelos favores que realizava para os comerciantes em troca de algumas moedas ou mesmo de um copo de cachaça. Deram-lhe este apelido porque quando já estava “alto”, gostava de cantar as músicas românticas de Roberto Carlos. Algumas pessoas paravam para escutar e até fazer pedidos, acho que alguns levavam na gozação. Porém, quando ele estava na sua sobriedade era uma pessoa fechada e homem de poucas palavras. Geralmente não gostavam que lhe perturbasse com alguma espécie de brincadeira a respeito de seus “delírios”, por incentivo do álcool. Algo que poderia acarretar num possível conflito, então era melhor que o deixasse em paz do que molestá-lo.

Não o vejo mais com frequência. Segundo rumores parece que largou o vício e se regenerou. Conforme o professor Melo, “O Roberto Carlos mais conhecido também por “chorão”, ao se embriagar, como faz diariamente, canta com a mão no ouvido as mais lindas canções do “rei” Roberto Carlos”. (MARTINS.Francisco De Assis, Meu Pé de Serra, O Ipu.Poesias, Crônicas e Outros:1ª Ed, Fortaleza, 2008, p. 118.)

Realmente algo que perturba o sistema nervoso de quem não usa o álcool moderadamente, por isso, os problemas psíquicos são reais como nos informa José Mauro Braz de Lima.
A questão que suscita a preocupação de todos reside no abuso e posteriormente na dependência, que vem a surgir em uma pequena, porém significativa parte dos indivíduos. Nesse aspecto, o excesso do etanol no sangue, acima da quantidade que o organismo de cada pessoa possa metabolizar, provocara perturbações que levam a depressão celular ou redução de atividade metabólica primaria da célula (metabolismo oxidativo); suas ações sobre os neurônios do cérebro se faz marcante em decorrência do que poderíamos chamar de maior vulnerabilidade celular. Com relação a este aspecto, no próprio cérebro identificam-se diversas populações neuronais com “graus de vulnerabilidade”. (LIMA, José Mauro Braz de. Op. cit., p. 39 - 40.)

GALINHA (O MENSAGEIRO)
O “Galinha” (Durval) era outro destes tipos que não tinham uma ocupação e vivia de fazer favores aos proprietários do Balneário da Bica do Ipu. Dizem que subia o caminho que levava a balneário da Bica do Ipu, ponto turístico da cidade, correndo, o que parece ser exagero, pois são quase dois quilômetros de íngreme ladeira.
Um fato me faz recordar do “Vavá”, outro apelido, por causa do seu nome de batismo, Durval. O primeiro foi quando um cidadão aqui de Ipu pediu-lhe no final de tarde para trocar R$ 50,00, mas o “Galinha”, jamais apareceu com o dinheiro. Logo mais a noite como de costume íamos para o calçadão do Pavilhão Bar quando o noto bebendo cerveja achei estranho, pois além da cerveja cheia ainda havia três garrafas vazias e uma travessa, creio de frango à passarinha.
O estranho foi que sempre o via empulhando uma dose de cachaça. A cerveja estava além de suas condições financeiras, pois não tinha nenhuma ocupação que lhe permitisse gozar de um salário semanal. De repente a tranquilidade é quebrada quando o suposto dono do dinheiro apareceu, um desses músicos que “toca na noite” (seresteiro), o agarra pela camiseta e começa a socá-lo. Mas logo a confusão se cessou, quando as pessoas o afastaram do local. Então compreendi o porquê daquela mordomia, regada à cerveja e tira gosto. O “Galinha”, como os outros que consumiam o álcool em demasia, não era uma má pessoa, apenas exagerava um pouco quando em seu estado ébrio.
Em 2008, foi encontrado morto em circunstâncias estranhas. Não sabemos se por consequência do alcoolismo ou se em consequências naturais. O assassinato é descartado, pois não foi encontrada nenhuma marca de violência no seu corpo.

“PEIXE” (O CAMBISTA)
O “Peixe” foi outro personagem que muito cedo, ou seja, desde a sua adolescência, consumia álcool. Desde então sua sina era viver no mercado sempre bebendo, tinha a profissão de gari, mas o via mais embriagado do que realizando seu oficio. Em seu estado sóbrio gostava de fazer rifas de algum produto como dez quilos de arroz ou de açúcar. Segundo relatos tinha o hábito de enganar as pessoas quando as mesmas eram contempladas.
Em 2013 foi preso por furtar um telefone celular de uma senhora na feira, passando alguns dias no cárcere. Dependeu de pessoas vinculadas ao poder público para a sua libertação. Sendo libertado, dando continuidade ao que sabia fazer com frequência, continuou embriagando-se e fazendo seu tour pelo centro da cidade. Mas neste mesmo ano, após uma discussão com um homem durante uma tarde do domingo de carnaval, 2/3/2014, foi atingindo com perfurações a faca, sendo levado as pressas para o hospital da cidade e em seguida conduzido a cidade de Sobral, aonde veio a falecer por causa da gravidade dos ferimentos, na terça feira dia 4/3/2014.
O destino dessas pessoas que se envolvem com o vício desta droga legal se torna realmente desastroso, acarretando tanto em prejuízos degenerativos, tratando-se de doenças, quanto econômicos e morais. Portanto, assimilo estes efeitos negativos da consumação excessiva do álcool com outras drogas, pois desconhecem suas limitações e geralmente tornam-se violentos, corajosos, donos da razão e se julgam capazes de qualquer proeza. Basta verificarmos nas brigas ou rixas, nos acidentes como afogamentos nos rios, lagos e mar ou mesmo de jovens que se apossam de veículos automotivos. As consequências são os inúmeros acidentes que quando não deixam sequelas como amputações, escoriações e traumas graves, lavam a óbitos sumários. É o que nos apresenta Jandira Mansur.
A retirada do caráter de voluntariedade da ingestão de bebidas alcoólicas abole ao menos oficialmente o julgamento moralista em relação aos alcoólatras, onde a responsabilidade da ingestão exagerada de bebidas alcoólicas é atribuída à degradação moral ou à fraqueza de caráter. Ao alcoólatra não deve ser mais atribuída uma falha moral, mas, antes, ele deve ser considerado como vitima de uma doença, o alcoolismo, cujo sinal característico é a perda do controle. (MANSUR, Jandira. Op. cit., p.31.)

DITÔCA (O ATLETA)
Um caso de extrema violência que repercutiu num destes bairros periféricos da cidade de Ipu aconteceu no bar do Sr. Adércio, localizado no Bairro da Grota. Lembro que o ano foi 1986, quando um desses personagens que viviam quase que todos os dias embriagados, o “Ditôca”. Recordo-me do seu verdadeiro nome que era Malaquias, pois ouvia seus familiares chamá-lo desta forma. Homem magro, alto e com olhos vermelhos devido as constantes embriaguezes, mas de natureza pacata. O seu único deslize, que guardo na memória, creio foi quando este tentou furtar a carteira de cigarros de um homem chamado “Chico Eletricista”.
Este último não satisfeito com o suposto “roubo” desferiu alguns golpes de faca no “Ditôca”, quase lhe tirando a vida. Encaminhado às pressas para a cidade de Sobral, depois de algumas cirurgias, conseguiu sobreviver. Algumas pessoas que o tinham como amigo ficaram revoltados com este episódio, pois o “Ditôca” não era um meliante, apenas não controlava a sua embriaguez, na verdade era até uma pessoa divertida.
Conforme José Mauro Braz de Lima compreende que.

“Esta condição, que ocorre de modo diferente em pessoas diferentes, dependendo dos traços da personalidade de cada um, favorece um clima na qual poderá ocorrer situação de violência. Por este prisma, poder-se-á observar o aspecto das diversas situações nas quais o alcoolismo está direta ou indiretamente envolvido: a violência nas prosaicas brigas dos bares e botequins, às vezes ocorrendo homicídios ou lesões graves.” (LIMA, José Mauro Braz de. Op. cit., p. 138.)

Dizem que os médicos o proibiram de voltar a beber, mas nós sabemos como se comportam os viciados com relação ao alcoolismo. Continuando ele no vício e veio a óbito poucos anos depois, supostamente pelo excesso de álcool, após contrair uma cirrose. Ditôca tinha uma habilidade com a bola, tanto de jogador na linha, quando no gol, por isso se autodenominava atleta, pois participava também das corridas promovidas durante as festividades do aniversario da cidade Ipu. Algo de divertido neste homem ocorria, quando embriagado, cantar uma canção da banda de Newcastle (Inglaterra), The Animales, “The House Of Rising Sun” (THE HOUSE OE THE RISING SUN, The Animales, Universal, 1964.) É claro que não sabia inglês, apenas tentava imitar a voz do cantor da banda, causando risos. Como recompensa, ganhava um copo de cachaça serrana. Confesso que era quase que folclórico na cidade de Ipu, mas se foi precocemente vítima do alcoolismo desenfreado.

Muitas pessoas não consideram o álcool como uma droga, talvez por se tratar de uma substância lícita e não se consideram alcóolatras, pois concluem que só se torna viciado o indivíduo que bebe todo “santo dia”. Tomar um porre violento duas a três vezes por semana, é considerado por eles ao normal. Segundo Silveira: “Quando o alcoólatra não reconhece o seu próprio estado, está bem longe da possibilidade de se curar e não raro faz o que é pior: volta-se contra seus verdadeiros amigos e parentes que se mostram realmente interessados e preocupados com a sua saúde física e mental”. (Ibidem, p. 85.)

BRAULINA (EX-PROSTITUTA)
Algumas mulheres faziam também o uso indiscriminado dessa substância psicoativa, o álcool. Uma mulher da vida famosa do cabaré da cidade de Ipu, após se aposentar da sua profissão se entregou a sarjeta. Trata-se de “Braulina”. Quando conversei com alguns senhores, antigos clientes dela, diziam que era natural da cidade de Crateús e muito bela quando chegou à nossa cidade. Dizem que, por isso, era disputada pelos frequentadores do prostíbulo.
Lembro com perfeição o seu rosto deformado pela constante embriaguez na porta do Mercado Municipal, pedindo esmolas e também com sinais de pele ressecada e algumas feridas, talvez por causa de uma cirrose hepática, isso por volta de 1984. Pouco tempo veio a falecer, pois embora com todos os problemas degenerativos continuasse bebendo o que alastrou ainda mais os problemas por causa do alcoolismo. Uma vez ou outra era motivo de chacota por alguns desocupados que não cessavam de insultá-la. Ela, por sua vez, esbravejava proferindo palavras de baixo calão. Como afirma o professor Melo.
“Braulina, mulher da vida. Entregou-se ao vício e a prostituição, assim foi toda sua existência. Já depois de algum tempo contraiu varias doenças chamadas na época de “doenças de rua”, que lhe levou a morte. Era conhecida por todos como a “esposa coletiva ou ambulante”. Pobre Braulina morreu em plena praça pública ou mais precisamente no Jardim 26 de Agosto no centro da cidade. (MARTINS, Francisco De Assis. Op. cit., p. 127.)

MARIA HOMEM (MULHER MACHO)
Devo destacar também a “Maria Homem”. Dizem que recebeu este nome por possuir os dois sexos masculino e feminino e também por “peitar” os homens que a irritavam. Quanto à questão hermafrodita creio que são apenas boatos. Ela faz parte deste rol de personagens que citei. Costumava perambular pelo mercado quase, sempre de porre. Algumas vezes observavam seus filhos junto com ela. Achava uma situação deprimente e triste a mãe embriagada e os filhos segurando na “barra de sua saia”. Coloquei esta expressão entre aspas, pois nunca a vi de saia, na verdade sempre usava uma calça Capri ou uma mais cumprida. Segundo Pedro Cardoso Filho. “Geralmente o beber solitário e confinado torna essas mulheres introspectivas e revoltadas, caracterizando um estado de nervosismo, angustia, ansiedade e conflitos íntimos, obrigando-as, além disto, a consumir drogas ansiolíticas, antidepressivas e psicotrópicas para controlar a depressão e até mesmo o uso de anfetaminas, quando o alcoolismo vem associado a problemas de emagrecimento” (FILHO, Pedro Cardoso. Op. cit., p. 75.)

Não mais vi os filhos acompanhando-a talvez ou com certeza o Conselho Tutelar tenha tomado às providencias cabíveis. Esta mulher proferia os mais “cabeludos” palavrões quando estava de porre e praguejava quem a encarrasse e corria atrás de quem a insultasse. Diversas vezes quando frequentava o mercado presenciei esta cena com varias pessoas gritando em coro e em gargalhadas, principalmente dos peixeiros e marchantes.
Não a vejo com frequência no seu “habitat”, talvez as constantes embriaguezes tenham minimizado suas forças e se encontre apenas no lugar aonde mora, no distrito de Abílio Martins, aproximadamente 20 km da sede. A “Maria Homem”, da ultima vez que a vi já se encontrava numa situação não muito confortável em termos de saúde, pois estava magra além do normal e ainda bebendo, suponho que geralmente as pessoas quando chegam a este estágio deplorável, não se tem mais esperança de dias melhores por isso a entrega incondicional ao vicio, igualmente a outros que citei.

MARIA PÃO DE LEITE (A MENINA VENENO)
A Maria pão de leite era uma daquelas mulheres que comumente andava embriagada pelas ruas do Bairro da Caixa D’agua, porém, não era de provocar escândalos, apenas falava alto com uma voz fina. Por vezes chorava e cantava nada mais que isso. O apelido de “menina veneno” é por ocasião do estado de embriaguez, gostava de cantar a música menina veneno do cantor inglês, naturalizado brasileiro Ritchie, embora muito desafinada, mas arrancava gargalhadas das pessoas que ouvia cantar. Já era idosa, mesmo assim continuava bebendo não sei se por causa da solidão, apenas achava que por não ter marido perambulava pelas ruas do bairro em questão, bebendo como fazem aqueles que vivem na boemia.

CHICA SOBRAL (A DANÇARINA)
Uma mulher que também perambulava pelo Bairro da Caixa d’Água em estado de embriaguez era a Chica Sobral. Às vezes era vista sóbria. Suas características já afirmava por si próprias que era alcoólatra. Quando cantava também dançava desconcertantemente. Recebeu o pseudônimo de Chica Sobral por ter suas origens na cidade de Sobral. Tinha uma voz rouca e em algumas ocasiões tinha um ar de ser um pouco hostil, principalmente quando alguém a molestava. Dava até medo quando de repente cruzávamos com ela, mas era apenas pela aparência, pois na verdade o único mal que praticava era para si própria, quanto à consumação alcoólica. Talvez por isso tenha vindo a óbito nos anos de 1990.

BARONESA (A FILHA DO TROVÃO)
Esta mulher morava no Bairro do Breguedoff e, como as mulheres citadas, sua sina era viver embriagada quase todos os dias. Sua rotina se desenrolava do bairro onde residia até o mercado público. Sempre na volta, como de costume, estava embriagada e nesse estado promovia escândalos no seu reduto, ainda no mercado público ou mesmo nas praças do centro. Seu apelido de “filha do trovão” resultou das suas constantes rixas e conflitos envolvendo membros da sua família.

Segundo o Professor Melo, “a cada arrancada era uma trovoada”. (MARTINS, Francisco De Assis. Op. cit., p.119.) Algumas mães na época, como uma forma de repreender seus filhos, dizia que iriam chamar a Baronesa, causando-lhes medo, pois era comum temerem pessoas que para elas pareciam estranhas, no caso aquelas pessoas que viviam em constante estado de embriaguez. Sua morte foi estranha, pois a encontraram-na próxima ao bairro onde residia com marcas de violência. Foi, com certeza, assassinada, caso que causou revolta e mistérios, e se tornou insolúvel para a polícia na época.

“SEVERINA”
A Severina é uma dessas mulheres que não fazem nada na vida há não ser perambular pelas ruas do centro de Ipu. Comumente, o Galpão dos Feirantes é o lugar aonde se encontra, e faz o papel de pedinte, sempre com um pretexto de que seu gás acabou e que precisa de R$1,00, pra comprar um quilo de arroz que na minha visão não passa de um “blefe”, pois tenta filar de alguém, algum dinheiro para satisfazer seu ego que é beber. Costuma também frequentar o Mercado Público. Sua sina é viver sempre embriagada perturbando especialmente nos dias de feira, as pessoas que frequentam os boxes para almoçar ou outras que estão degustando algum tipo de bebida alcoólica.
Estas pessoas, apesar de seu modo de vive ficaram marcadas na memória dos ipuenses. Muito se relata a respeito destes atores sociais. Embora não sendo de relevância social, mas de certa forma eles construíram um pouco da nossa história, com seus costumes, linguagens e crenças.
Na minha concepção existe um dualismo dentro deste contexto, um alcóolatra em potencial, aquele chamado de “pé de cana” ou “pé de balcão” e os moderados que bebem de vez em quando ou apenas nos finais de semana, após as “peladas” com os amigos do trabalho, como é corriqueiro algumas pessoas realizar este hábito. Em algumas ocasiões acompanhado de familiares, no entanto, existe uma moderação quanto à consumação de bebidas alcoólicas quando há algo desta natureza.

2.2. DO TRABALHO PARA O BAR.
[...] As pessoas que eu detesto.
Diga sempre que eu não presto.
Que meu lar é o botequim. [...]
(ULTIMO DESEJO, Noel Rosa, Gravador a RCA, 1º de julho de 1937, gravada na voz de Araci de Almeida.)

Creio que as pessoas que se dirigem para os bares depois da “sina”, também fazem parte de um ritual semanal ou diário. Pois seria uma forma de acalentar as fadigas de um dia duro ou uma semana estafante de trabalho e se entregarem ao “delicioso” hábito de beber. Este ato é comum em todas as classes sociais desde as mais simples até as mais complexas, por exemplo, funcionários de instituições financeiras como o Banco do Brasil e Caixa Econômica que em algumas ocasiões os via bebendo algum tipo de bebida sempre às sextas-feiras. No entanto, isso pode acarretar numa espécie de dependência? Neste ponto suponho que possa haver uma variação desses alcoolistas, porque é fácil se tornar um ébrio quando o consumo de álcool se torna constante, fora os agravos patológicos. Por isso, para evitar qualquer tipo de abuso é recomendável se utilizar o álcool moderadamente, mesmo aquele que só degustam bebidas tanto destiladas, quanto fermentadas, serem administradas em “suaves” doses como afirma Lima.

“Dentro da visão mais conservadora, portanto, o alcoolismo só ocorre quando o individuo (trabalhador) é alcoólatra, ou seja, esta no fundo do “poço, no fim da linha”, com doenças mais graves degenerativas, algumas vezes irreversíveis. Neste enfoque, os pacientes têm em geral doenças já bastantes constituída, com lesões ou distúrbios em vários órgãos, levando a quadro o tipo de falência múltipla dos órgãos secundários ao alcoolismo.” (LIMA, José Mauro Braz de. Op. Cit., p. 87.)

As dosagens diárias ou semanais podem ser perigosas para o trabalhador, porque como uma espécie de droga o álcool nestas circunstâncias vicia. Neste caso, uma libertação deste nocivo vício causaria no indivíduo perdas e prejuízos como já foi citado. Na cidade do Ipu, como também em qualquer complexo urbano, até mesmo nos rurais, estes atos são comuns, ou seja, tomar umas depois do trabalho é um hábito para muitos
Algo que me chamava no final da década de 1970 e boa parte da década de 1980, diz respeito ao fato de algumas pessoas trabalharem durante a semana e frequentarem assiduamente os bares, levavam consigo para estes lugares diversos discos embaixo do braço para ouvir suas canções favoritas, como as de Waldick Soriano, Genival Santos, Altemar Dutra, entre outros. Curtindo seus tragos, não se contentavam em apenas ouvir, também cantavam juntos com o disco, desafinados que doía nos ouvidos. Quando já estavam alterados, falavam palavrões, e afugentavam a clientela, pois, além disso, gostavam de galantear as mulheres, sejam as solteiras ou casadas. Verdadeiros perigos para estes indivíduos, porque a qualquer momento poderiam gerar conflitos, principalmente quando os maridos ficavam a par destas situações.

O que tornava hilário naqueles momentos era quando seu organismo não aguentando mais os constantes “bombardeios” de cachaça, mal conseguindo ficar de pé recolhiam seus discos e se dirigiam para seus lares, os discos caiam da capa e saiam rolando pela calçada e cambaleando, inutilmente, tentavam agarrá-los, arrancando risos de quem passava pela rua. Realmente um fato engraçado. Algumas vezes tentávamos ajuda-los, mesmo que eles não gostassem, pois pensavam que queríamos ficar com os seus discos. Desconfiados até demais, pois quem iria querer uns discos de brega, principalmente na nossa idade, crianças, sem o gosto para tal gênero musical. Conforme Izilda Matos.

“A produção musical se apresenta como um corpo documental particularmente instigante, já que as canções por muito tempo constituíram um dos únicos documentos sobre certos setores relegados ao silencio; aqui em pauta: o ébrio. A música também é apontada como uma das únicas estancias publicas em que o homem se permite falar com sinceridade sobre seus sentimentos com relação à mulher, confessando suas angustias, medos, fraquezas, dores e desejos.” (MATOS, Maria Izilda Santos de Op. cit., p. 79.)

No cotidiano esses consumidores de bebidas alcoólicas já se adequam as tecnologias que o mundo oferece, pois não há mais aquele costume de sair para beber com uma pilha de discos de vinil, mas com algo que os padrões tecnológicos oferecem, como o uso de um pen drive, dispositivo que armazena centenas de músicas e sem o transtorno de outrora, usufruindo o que as novas tendências tecnológicas oferecem. Acho que o único problema em se tratando do pen drive é de perdem-no ou se “queimarem” com uma queda. Não apenas o pen drive como também os aparelhos celulares, aperfeiçoados frequentemente.

Realmente são várias as situações que envolvem trabalhador, bar e bebida. Numa delas, no bar, o indivíduo permanece por muito tempo, esquecendo-se do lar, da mulher e dos filhos. Há casos, ocorrido com muitos deles, de dormir ao lado das coisas que seriam para o almoço. Quando a mulher já cansada de esperar saia na busca do paradeiro do marido, era comum observarmos suas tentativas despertá-lo do sono alcóolico. Como cita Maria Izilda Santos de Matos: “A família era identificada como a célula da sociedade, devendo ser regenerada, higienizada no processo de construção da sociedade [...]” (Ibidem, p. 41.) E quando não conseguiam, o carrinho de mão era a solução. Fato hilariante e ao mesmo tempo constrangedor para um homem trabalhador e pai de família, isso para os preconceituosos, pois sabemos que são fatos corriqueiros da cidade pequena.

Outros não querendo expor sua integridade moral bebiam nos bares próximos a sua residência para que não houvesse situações como à citada anteriormente. Mesmo assim, acontecia algo semelhante quando na mesma situação, não tendo forças para se deslocar para sua residência, era “rebocado” para casa pelo dono do bar e amigos, o que não deixava de ser também embaraçoso.
Estes episódios geram comentários e fofocas sobre a negatividade desses casos de embriaguez. Contudo, o trabalhador também reservava um tempo para acompanhar sua esposa nos passeios matinais e nas missas de domingo, em seus momentos de folga, portanto, geralmente nos finais de semanas, nos feriados nacionais ou nos dias santos. Devo acrescentar que geralmente após o término da celebração dos Santos Ofícios nos domingos era praxe uma passadinha no botequim mais próximo para tomar um trago com os amigos, dizendo a esposa que iria ficar só uma fração de tempo. No entanto, passava horas no bar, mesmo sabendo que no dia seguinte iria para a labuta. Conforme Maria Izilda Santos de Matos: “Apontavam-se como os mais atingidos pelo alcoolismo o operário, o lavrador, o pescador e o pequeno empregado, o que já podia ser percebido por grande número de industriais que rejeitavam operários frequentes de álcool”. (MATOS, Maria Izilda Santos de. Op. cit., p. 40.)

Testemunhei estes casos, pois algumas vezes a Banda de Música, da qual sou membro, animava os fiéis antes das missas e permanecíamos juntos um bom período após o término da mesma. Fazíamos isso com frequência no “Bar Matriz”. Esta era a rotina ou ainda é do homem trabalhador que usava as bebedeiras tanto para satisfazer seu ego, quanto para uma forma de complemento para preencher a monotonia que lhe rondava, por exemplo, do trabalho para o confinamento do lar. É claro que nem todos tinham este hábito, porque havia aqueles que mantinham certa temperança quanto ao uso do álcool como uma espécie de lazer ou algo parecido e dando prioridade a reunião da família no domingo e o descanso para o início da outra semana.

A embriaguez na cidade de Ipu tornou-se um problema social, visto a cidade não ter ainda uma perspectiva de como sanar este problema, pois historicamente as pessoas começam a ingerir o álcool, na maioria das vezes, antes de completar a maioridade, pois é algo comum também na atualidade. Não há políticas de saúde pública como mecanismo de esclarecimento para a manutenção de uma temperança entre os usuários das bebidas alcóolicas.

Como já foi citada, a consumação é benéfica para a economia, pois muitas pessoas na cidade de Ipu há décadas sobrevivem da comercialização das bebidas alcóolicas, mas, em contrapartida, o consumo exacerbado pode gerar o que chamamos de mazela social, um fato que já é uma realidade.

CAPITULO III
O ÁLCOOL, DROGA LEGAL E NOCIVA
Como já foi relatado no início deste trabalho, o álcool é tão antigo quanto a humanidade e seus efeitos nocivos para quem o usa em demasia, pois sabemos os efeitos econômicos e psicossociais que esta substância causa nos imprudentes que, embora saibam a negatividade do vicio permanecem ingerindo constantemente o liquido, caso que relataremos no item 3.2. Segundo Nemésio F. “O alcoolismo é um problema muito mais serio do que a maioria das pessoas supõe! Considerando as somatórias dos prejuízos que causam às pessoas e a sociedade em todo mundo, é um dos piores males que afetam a humanidade! Lamentavelmente ainda não lhe foi dada a atenção e o tratamento que ela merece!”. (F, Nemésio. Alcoolismo, Sua Causa e Sua Libertação, 1ª ed: Rio de Janeiro, Editora Livre Expressão, 2007, p. 88.)

O álcool, por ser considerado uma droga legal, tem a sua adesão é mais fácil do que as outras ilícitas e que encontra em qualquer esquina implicando que o individuo que ingere doses diárias pode se tornar dependente químico, pois como qualquer substância entorpecente ela poderá levar aqueles que a consomem para o “subterrâneo” do poço. A dependência não está, digamos, centrada na família, ou seja, não pode ser considerado um fator hereditário, porque se os pais forem viciados isto não implica que os filhos poderão seguir o mesmo vicio. No entanto, pode ser que um dos filhos mais tarde possa se tornar uma alcóolatra, não dentro do âmbito familiar, mas no meio ou no grupo social que está inserido por curiosidade ou até mesmo mostrar como os jovens dizem nos dias de hoje que são “descolados”.
Na cidade de Ipu, ocorreram casos de um indivíduo que na família não tinha histórico de alcoolismo e de repente se tornou alcóolatra. Da mesma forma, atribuo estes pressupostos ao tabagismo. Por exemplo, na minha família meus pais são fumantes e os sete filhos não herdaram o vício do fumo, porém nos dias de hoje como há uma antecipação dos jovens aos hábitos dos adultos pode ser que haja uma exceção quanto à hereditariedade do vício, seja do alcoolismo, tabagismo, ate às drogas mais pesadas como a maconha, cocaína, além dos seus derivados como o crack que é mais letal.

Desde o século XIX, o alcoolismo já era considerado uma patologia e medidas de prevenção ao uso irrestrito da droga se deu no inicio do século XX, principalmente com a Lei Seca adotada pelo governo estadunidense na década de 1920, em consequência do consumo exagerado do álcool. Mesmo assim, muitos consumiam longe dos olhos do governo, além da fabricação caseira, onde havia uma sonegação de imposto devido à clandestinidade do produto, conforme Fishman: “Entre 1920 e 1930, o numero de alcóolatras decaiu vertiginosamente nos Estados Unidos. Durante a Lei Seca era difícil conseguir bebidas fora das grandes cidades. O fim da proibição coincidiu com o inicio da grande depressão com os americanos retomando o vício de beber”. (FISHMAN, Ross. Op. cit., p. 50.)

Na atualidade, a Lei Seca é adotada durante os feriados prolongados para evitar os acidentes automobilísticos nas estradas e em outra ocasião nos processos eletivos que é de 2 em 2 anos, porém, esta lei não é rigorosamente obedecida, como testemunhei no ultimo pleito de 2010. Por esta lei não funcionar durante este período, pode produzir um perigoso conflito, pois contendas podem ser geradas a partir de uma embriaguez exagerada, pois sempre haverá um descontrole emocional. Este fato foi um tanto corriqueiro durante vários processos eleitorais até mesmo pelos adversários para o pleito municipal que não respeitavam tanto quem era vencedor, quanto derrotado. No pleito para prefeito no ano de 1982, (Francisco Eufrásio Mororó x Dr. Rocha Aguiar) lembro com lucidez as extravagâncias que os vitoriosos realizavam, por exemplo, na época usaram um caminhão de laranjas podres para jogar nos adversários e pessoas amedrontadas com vandalismo proporcionado pelos vitoriosos fecharam as portas ficando confinado em casa até que estes desordeiros fossem embora.

Estas pessoas que causaram este tipo de desordem estavam embriagadas, porque na época notei que um deles portava uma garrafa de cachaça gritando constantemente “olha fumo”, expressão corriqueira dirigida àqueles que foram derrotados nos pleitos eleitorais e também clamando o nome do candidato vencedor Flávio Mororó (Eufrásio Mororo 1983-1988). Nem a residência de seu oponente, Dr. Rocha Aguiar foi poupada pelo fato de algumas pessoas a invadirem e quebrar tudo o que havia na casa.
3.1. AS MAZELAS PROVOCADAS PELO ABUSO DO ALCOOL
Durante muito tempo, o alcoolismo vem sendo um dos problemas mais agravantes entre a sociedade em geral e também um problema de saúde publica. Na verdade o alcoolismo, como já foi citado, é uma patologia e das mais graves, pois as reações físicas para aqueles consumidores mais imprudentes são diversas como a degradação de órgãos importantes como a laringe, pois uma consumação expressiva pode causar câncer da mesma, cirrose pulmonar e problemas com o fígado que é forçado a remover o álcool da corrente sanguínea e desintoxicar o organismo e os rins, além é claro dos problemas externos como a pele ressecada, a perda de pelos nos braços e nas pernas e claro o corpo deformado principalmente a face (inchaço), por isso o termo pejorativo de “papudinho” e como consequência maior, o óbito. Michel Foucault afima. “Vista da morte, a doença tem uma terra, uma pátria demarcável em lugar subterrâneo mais sólido, em que se formam seus parentescos: os valores locais definem suas formas”. (FOUCAULT, Michel. O Nascimento das Clínicas,7ª ed. Rio de Janeiro, Editora Forense Universitária, 2011,p.173)

Outro fator que podemos associar ao alcoolismo é o tabagismo, pois na verdade algumas pessoas além de alcoólatras também são fumantes. Assim como o tabagismo, não existem meios seguros para o consumo desta substância, como afirma Lima. “Os malefícios e consequências nocivas do abuso do álcool sempre existiram, porém sempre foram subestimados ou mesmo negados como alias, de certa forma, ainda nos dias atuais”. (LIMA, José Mauro Braz de. Op. cit., p.13.)

O excesso pode se tornar um verdadeiro perigo para o indivíduo, pois se é uma droga legal, também pode ser letal. Por isso, acarreta em prejuízos tantos físicos, quanto sociais e morais, porque às vezes, o individuo pode ser visto com repúdio e preconceito pela sociedade. A própria medicina condena o alcoolismo, mas mesmo com essa condenação nem os esclarecimentos sobre o perigo do álcool é suficiente, pois devem existir os programas de assistência social e politicas públicas de saúde para sanar este grave problema do alcoolismo nos indivíduos que consomem a substância em alta escala.

Em 2010 a Igreja Católica da cidade de Ipu, na pessoa do padre Raimundo Nonato Timbó se mobilizou para combater a ebriedade na nossa cidade e prestar assistência àquelas pessoas que sofrem com este “mal”, denunciando os infortúnios e as mazelas referentes ao seu consumo desordenado. Lima faz uma conclusão sobre a necessidade da existência de assistências públicas de saúde para as pessoas que tem problemas com o alcoolismo.

“Portanto, politicas públicas de saúde e de educação que privilegiam as estratégicas e ações de prevenção, além do tratamento efetivo, colocam-se como urgentes e necessárias para que se possa enfrentar da melhor forma a questão de problemas relacionados ao abuso e a dependência do álcool dentro de uma visão sistêmica, a qual permita abordar questões transversais, como é o caso da questão do alcoolismo.” (LIMA, José Mauro Braz de. Op. cit., p. 62.)

É difícil para qualquer pessoa que se envolva com o alcoolismo se libertar do vício, pois a vontade de beber é mais forte do que colocar um “basta”. O alcoolismo como droga atinge uma parcela significativa da sociedade e a própria mídia revela as pessoas que têm ou tiveram problemas com o álcool como: políticos, atores, escritores, cantores, jogadores de futebol etc. Um escândalo aqui e ali, um prato cheio para aqueles que vivem das desgraças dos outros como os paparazzi e posteriormente as divulgam na mídia.

Durante este trabalho relatei sobre as pessoas vitimas do alcoolismo onde geralmente perambulam pelas ruas, praças e avenidas, tendo como ponto principal, o mercado público da cidade de Ipu. É notório o estrago que o álcool proporciona a estas pessoas além do moral e psíquico. É comum encontrarmos estes sujeitos às vezes perambulando e falando sozinhos, proferindo palavras ou frases de difícil compreensão, rindo do nada.

Uma desses sujeitos, é conhecido como “Oitenta” que possui estas características que citei, apresentando um estado deplorável e creio que devido às constantes embriaguezes adquiriu uma deficiência cognitiva, porque um dos fatores para tal conclusão é uma espécie de demência como vasculhar as latas de lixo das lanchonetes e restaurante, catando algo para comer, onde apenas os cães realizam este ato.
Também, colhi informações que um dos transtornos adquiridos por causa do alcoolismo foi a epilepsia que de vez em quando se manifesta. O CAPS é o órgão responsável pela recuperação desses indivíduos “portadores” desta patologia (epilepsia) como já presenciei o trabalho do mesmo na cidade de Ipu, prestando assistência aqueles com problemas cognitivo. O psicólogo Luiz Felipe Castelo Branco da Silva enfatiza o trabalho do CAPS como órgão responsável no auxílio para a recuperação e reintegração do “doente” a sociedade.

“De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), estima-se que o abuso de álcool revela-se como responsável por aproximadamente 20-30%, dos casos dos de câncer de esôfago, câncer de fígado, cirroses hepáticas, homicídios, epilepsia, e acidentes automobilísticos. Além disso, em 2002, o consumo abusivo foi responsávelpor 2,3 milhões de mortes prematuras (...).” (SILVA, Luiz Felipe Castelo Branco da.Alcoolismo:do cálice que cala e à escuta que liberta. O pedido silencioso de dependentes e abusadores de bebidas alcoólicas no acolhimento de um CAPS-AD, 1º ed. Curitiba: Editor Juruá, 2011, p. 54.)

A Instituição CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), na cidade de Ipu, desenvolve um trabalho de reabilitação para pessoas com transtornos psíquicos, porém a assistência voltada para o alcoólatra ainda não é uma realidade, mas que segundo as palavras da Drª Francisca Gonçalina Martins Timbó, “tem um grupo com atividades direcionadas aos alcoólatras com transtorno na cidade de Ipu, mas que não fazem prevenção quanto ao problema do alcoolismo, mas apenas um acompanhamento com um grupo de convivência, pois a reabilitação não esta inserida no CAPS, mas já foi solicitado um CAPS-AD, Alcool e Drogas”. (Drª Francisca Gonçalina Martins Timbó, 48 anos, casada, diretora do CAPS, Ipu/ce, entrevista realizada no dia 3 de julho de 2014.)

Como já relatei, não existem politicas de saúde publicas para o problema do alcoolismo na nossa cidade ou talvez nem em outras interioranas, pois percebo que as verbas destinadas a saúde são precárias e geralmente os alcoólatras ou pessoas com tais transtornos não são assistidas pela saúde, mas que na minha ótica, deveriam existir programas que atendessem a estes indivíduos que apresentam tais transtornos proporcionados pelas drogas lícitas e ilícitas na nossa cidade e, claro, prevenções como palestras, em especial no convívio escolar desde as séries iniciais, ou mesmo a distribuição de cartilhas apontando o mal que as drogas e a ideia social negativa provocada pelas mesmas.

Com tais programas de prevenções poderíamos pelo menos amenizar problemas futuros com os jovens associados às drogas perigosas e principalmente o trafico, porque nos grandes centros, centenas de jovens são vítimas e feitos também como “buchas de canhão” (Moroni Torgan, ex- Secretário de Segurança do Estado do Ceara.), segundo Moroni Torgan para camuflar o traficante e sustentar o tráfico.

O excesso desses indivíduos ao vicio os levarão para uma patologia crônica, uma recuperação irreversível e também a um provável óbito, pois as características de certo modo desse transtorno são anormais e se manifesta por vários males constituídos a partir do uso em demasia, alterando seu comportamento e também fatores biológicos. Como citei, para se tornar alcoólatra, um fator é estar relacionado ao meio ou grupo social e às vezes não se caracteriza por um vício hereditário ou adquirido no âmbito familiar, pois a adesão ao consumo em especial de jovens é real.

O perfil de um alcóolatra pode estar relacionado a problemas arraigados mesmo antes de se entregarem a o vício como os financeiros, as frustrações profissionais, as indiferenças, a solidão e traições tanto do gênero masculino quanto do feminino, pois seria uma estratégia para curar certas “dores”, abraçando o alcoolismo. Já conheci mulheres que por causa das “puladas de cerca” e pelo abandono dos maridos se tornarem alcóolatras perdendo totalmente a compostura de mãe de família e seu papel dentro da sociedade. São realmente transtornos psicológicos que alteram o comportamento de pessoas, conduzindo-as a um futuro obscuro, já que a porta de entrada para o vicio do álcool é larga mais sua saída é estreita.
São fatos que afligem uma parcela da população, evidenciando que nem sempre estas pessoas foram alcoólatras, mas por um fator negativo nas suas vidas que as tornaram viciadas e a partir desses fatores, uma fuga para o vicio desenfreado seria a mais eficaz das soluções, não percebendo que consequentemente estariam adquirindo mais problemas para as suas vidas em decorrência do uso indiscriminado do álcool. Ross Fishman, no seu trabalho Tudo sobre drogas (1988), aborda o alcoolismo como patologia e os males provocados pelo o mesmo, bem como os meios para combater o vício:

“Um dos efeitos imediatos do álcool é o de tranquilizante ou de causador de euforia e bem-estar. Um indivíduo que esteja enfrentando momentos de tensão, nervosismo, conflitos com a família ou com amigos pode entregar-se ao álcool para suprimir temporariamente a depressão a ansiedade e os sentimentos de medo. Na maioria dos casos em que pessoas começam a beber por razões emocionais, seus problemas se agravam em vez de ser resolvidos.” (FISHMAN, Ross. Op. cit., p. 49)

A citação de Fishman disserta muito bem no que tange a ideia de que o álcool não minimiza nenhum problema, e sim os agrava, provocando em quem consome em excesso, um sério perigo para a sua saúde e claro para a sua convivência social. Tal processo que, na minha visão, seria uma espécie de ostracismo, afastando o indivíduo do convivo e bem estar social para uma vida desregrada e famigerada. Muitos associam o fator alcoolismo como um problema da pobreza, da periferia, dos cortiços do início do século, mas como já foi dito, o alcoolismo como patologia, não escolhe posição social, pois em todo âmbito de socialização sempre ira existir os excessos.

É claro que o indivíduo deve sentir uma sensação prazerosa no consumo do álcool, porém devemos acrescentar que é um prazer passageiro e após os efeitos alucinógenos desta droga legal e a ressaca, os problemas voltam a rondar seu cotidiano. Nesse caso, o indivíduo mergulha novamente na embriaguez para servir como um consolo para seus dilemas. Isso acontece com mais frequência na atualidade, porque a acessibilidade às bebidas alcóolicas são mais frequentes do que a 100 ou 200 anos atrás, devido à “melhoria” de vida de algumas pessoas, principalmente no Brasil através dos programas sociais do governo como a Bolsa Família e a Bolsa Escola, onde alguns pais separam uma parcela destes benefícios para tomar uns “tragos” em dias de feria no Ipu (sexta e sábado).

Posso dizer isso com veracidade porque observei num dia desses, um “pai de família”, em meio a outros trabalhadores diários, peixeiros, marchantes, com um comprovante do beneficio e empunhando um copo de cachaça no mercado publico, chamando a presidente de “mamãe Dilma” e “papai Lula” em referencia a atual Presidente do Brasil e seu antecessor. Conversava mais do que bebia é um daqueles que pejorativamente o chamam de “papudinho”, ou diarista, embora o conheça como alguém que realiza algum tipo de trabalho informal como ajudante de pedreiro e em outras ocasiões ajudando os marchantes do mercado. Sidney Chalhoub, ao comentar sobre a imprensa do Rio de Janeiro, destaca como era o cotidiano daquelas pessoas que trabalhavam e aqueles sem algum tipo de oficio, sem nada para fazer no momento:

“(...) Ela revela claramente a tentativa de estigmatização da principal opção de lazer dos pobres urbanos do sexo masculino: a conversa informal que estes homens levam no botequim, ao redor de uma mesa de balcão, sempre sorvendo goles e de café, cachaça, cerveja ou algum vinho barato. Era ali, nos papos da hora de descanso, que se afogavam as mágoas da luta pela vida e se entorpeciam os corpos doloridos pelas horas seguidas do labor cotidiano.” (CHALHOUB, Sidney. Op. cit., p. 256 - 257.)

Estas pessoas permaneciam ou permanecem após a sina do meio dia até o mercado fechar, bebendo e discutindo coisas do cotidiano, como as picuinhas politicas e geralmente muitos não controlando o desejo de satisfazerem seu ego, bebem até seu organismo não suportarem, principalmente aqueles que degustam a “velha cana”. São bem visíveis as marcas de vômitos no dia seguinte dentro e fora do mercado. Neste contexto, podemos ver como é degenerativo o problema do alcoolismo, pois as náuseas provocadas pelos exageros são um sinal de que o organismo não está mais suportando o constante bombardeio dessa substância.

Comumente, após a ingestão do álcool em altas doses, estas pessoas não se sustentam mais com as próprias pernas, ficam encostados nas paredes e tentam disfarçar a voz inutilmente, pois o estado de embriaguez é notório nestes indivíduos; a partir desses pressupostos, podemos relacionar que o certo abuso crônico do álcoo é um verdadeiro perigo tanto para os consumidores quanto para as pessoas, pois alguns são portadores de veículos automotivos como motos e carros ou até mesmos as bicicletas, onde não há uma condição motora, visual, psicológica e acidentes desta natureza como colisões de veículos, atropelamentos são comuns nestas situações.

Outro problema que podemos associar as mazelas provocadas pelo álcool é a ingestão praticada pelas gestantes, que por falta de informação ou mesmo tomando conhecimento da periculosidade da droga, continuam bebendo e esta substância ao entrar na corrente sanguínea é levada posteriormente para o feto, causando efeitos catastróficos no mesmo, pois há uma alta sensibilidade do feto à substâncias tóxicas como o álcool e outras drogas como o próprio tabagismo, e a partir dai gera um desenvolvimento insuficiente como malformações genéticas, deficiências sensoriais e psíquicas, problemas congênitos. Portanto a consumação gera um perigo e a partir desse pressuposto um grave problema social, como afirma Lima.

“A síndrome alcoólica fetal constitui complexo quadro clínico de manifestação diversas, decorrentes da exposição da criança ao álcool, durante o período de gravidez. Tais manifestações caracterizam-se por um grupo de sinais e sintomas relacionados ao comportamento do SN (cérebro) e de outros órgãos.” (LIMA, José Mauro Braz de. Op. cit., p. 63.)

3.2. “EU BEBO, PORQUE GOSTO DE BEBER”. PESSOAS MESMO SABENDO DOS MALEFÍCIOS DO ÁLCOOL BEBEM DEMASIADAMENTE
Periodicamente é apresentado na mídia ou mesmo nas campanhas de políticas públicas os malefícios provocados pelo consumo exacerbado do álcool. Porém, estes alertas a respeito dos problemas do alcoolismo não têm surtido muito efeito para aqueles que se entregam ao vício, pois momentaneamente nos deparamos com situações nos diversos meios sociais.
Mas devo salientar que as pessoas que consomem álcool, às vezes nem sempre poderão se tornar alcoólatras em potencial, ou seja, existe certo controle no seu consumo. Outras não conseguem manter certo controle e se tornam “diaristas”, como chamamos aqui na cidade de Ipu, bebendo todos os dias da semana, mesmo sabendo o real prejuízo que este ato promove.
Substancialmente estes sujeitos que se entregam ao vício desenfreado afirmam não esta nem ai para as consequências negativas adquiridas nesta vida desregrada. A vontade de beber sempre é mais forte que o controle ou até mesmo de uma abstinência e seria preciso realmente muita força de vontade para que algo desta natureza viesse acontecer.
Estas pessoas não se preocupam com a sua reputação dentro da sociedade e não possuem controle moral sobre si mesmo ou o respeito mútuo sobre as outras pessoas, prevalecendo a negatividade do vício.

Mesmo a pessoa bebendo em demasia não gosta da ideia de se considerar ou que os outros o rotule de alcoólatra, porque eles não podem se ver como tal em seu estado de embriaguez.

As outras pessoas, sim, notam as situações negativas que o consumo em demasia provoca nestes indivíduos. Segundo Silveira na obra O drama do alcoolismo, causas consequências e solução, relata a respeito daqueles que consomem o álcool sem moderação e não se consideram um alcoólatra. “O individuo que usa e abusa das bebidas alcóolicas, não está em plenas condições de avaliar o seu próprio estado e dizer se é ou não alcoólatra. Ele não pode ser juiz em causa própria”. (SILVEIRA, Ajax. C. Op. cit., p.84.)

Acredito que estes fatores negativos estejam associados psicologicamente a falta de oportunidades e por não terem uma expectativa quanto a sua própria promoção social, mas é algo que esteja arraigado dentro dos padrões políticos e sociais onde apenas uma parcela da sociedade tenha acesso a uma vida mais digna, mas devo me contradizer, porque na verdade como já citei, o problema do alcoolismo se manifesta em todas as camadas sociais. Como afirma Mansur.

“A retirada do caráter de voluntariedade da ingestão de bebidas alcoólicas abole, ao menos oficialmente, o julgamento moralista em relação aos alcoólatras, onde a responsabilidade da ingestão exagerada de bebidas alcoólicas é atribuída à degradação moral ou à fraqueza de caráter. Ao alcoólatra não deve ser mais atribuída uma falha moral, mas, antes, ele deve ser considerado como vítima de uma doença, o alcoolismo, cujo sinal característico é a Perda de Controle. O que é alcoolismo.” (MASUR, Jandira. Op. cit., p.31.)

Logo, os indivíduos alcoólatras encontram prazer em beber repentinamente sem pensar nas possíveis consequências arrebatadoras no seu organismo comprometendo seu metabolismo, pois os mesmos não dão chance de suas células hepáticas se recuperarem e é claro o seu sistema nervoso adquirindo distúrbios psíquicos e quem sabe sensoriais. Quando se recuperam das constantes dosagens do álcool, voltam novamente a beber e tornam este ato como um hábito diário num longo espaço de tempo, ou seja, o dia todo.

É claro que estas pessoas de certa forma já adquiriram sérios problemas de saúde, no entanto, é compreensível que o vício já se tornou crônico, segundo Lima. “Neste grupo se encontram os “problemas relacionados” nas áreas da saúde do trabalhador, dos acidentes de trânsito, das vítimas de violências (agressões, homicídios, suicídios etc.)” (LIMA, José Mauro Braz de. Op. cit., p. 54.) e esta continuidade acarretara num provável óbito, porque o acúmulo de danos no seu organismo já promoveu a fragilidade do corpo. Lembro-me do comportamento dos indivíduos que consumiam álcool em altas dosagens na cidade de Ipu, violentos, sem pudor e sempre “donos da razão”. Também na atualidade é comum observamos estes tipos, isto é, não modificou o perfil dos consumidores de álcool, estes que já se tornarão um estereótipo e geralmente perdem o controle de suas emoções como citei no inicio do paragrafo. A pior das ressacas é a ressaca moral, prometem para si nunca mais tomar uma gota de álcool na vida, mas este desejo de parar de beber é apenas momentâneo, pois passados alguns dias voltam a beber novamente e fazer as mesmas coisas de antes em seu estado ébrio. Acontece com a maioria das pessoas que cometem algum deslize por causa da ingestão em demasia do álcool.

É notória a adesão de várias pessoas na cidade do Ipu ao uso indiscriminado do álcool: jovens de ambos os sexos, às vezes na sua maioria, menores de idade, consumido bebidas alcoólicas, fato que irei destacar mais adiante. Estas pessoas realmente têm consciência dos prejuízos do alcoolismo e mesmo assim não bebem moderadamente, administrando pequenas doses.

As influencias nos dias de hoje são mais frequentes do que a 20, 30 ou 50 anos atrás, pois apesar dos alertas, a sociedade atual tem um comportamento antagônico das anteriores e liberal no sentido de aceitar certos comportamentos desde o alcoolismo desenfreado, como outros fatores, por exemplo, o homossexualismo no sentido geral. Em contrapartida, se limitam do envolvimento social a respeito da problemática do alcoolismo. Muitas pessoas consomem álcool diariamente como se esta substância lhe proporcionasse força e coragem para labuta diária, especialmente aquelas pessoas que trabalham em serviços pesados como no caso de uma profissão informal que chamamos de carreteiros. Silveira expõe no seu trabalho esta enganosa sensação que o individuo pensa adquirir no consumo do álcool. “Muito ao contrario o álcool diminui a resistência física e a capacidade intelectual. [...] O álcool acaba nivelando todos os valores ao nível da sarjeta. O álcool não dá ao trabalhador resistência [...]”. (SILVEIRA, Ajax. C. Op. cit., p. 85.)

Um dos sintomas mais comuns decorrentes das pessoas que bebem em demasia é o chamado“delirium tremens”. Este distúrbio pode ocorrer com os alcoólatras quando bebem ou passam alguns dias sem beber, bem como aqueles que já pararam de beber, conforme Lima. “As complicações clínicas clássicas do alcoolismo são em geral vistas como quadros de natureza degenerativa, tóxico-metabólica e crônica, isto é, processos que decorrem da longa ação insidiosa de etanol sobre o organismo, com maior ou menor predominância neste ou naquele órgão”. (LIMA, José Mauro Braz de. Op. cit., p. 149.)

Durante os dias de feira na cidade de Ipu (sexta e sábado) é notório no mercado público, observarmos alguns bares frequentados por pessoas oriundas das camadas populares e foi em um desses lugares onde observei o comportamento desses atores sociais (fruteiros, carregadores, pessoas desocupadas, mulheres de má fama, enfim) e o ambiente do bar ia se inflamando de pessoas, uns sóbrios trazendo consigo um espeto de carne de porco com intenção de tomar a primeira tragada do dia e outros já embriagados empunhando um copo de cachaça e virando em apenas um gole tremendo a mão e um prato com gêneros de carne diferente como frango e linguiça.

Podemos observar na foto o comportamento das pessoas e como é cotidiano diário dos frequentadores do Mercado Público Municipal de Ipu, alguns comprando, vendendo ou mesmo conversando sobre algo como futebol, politica até da vida alheia, pessoas de várias classes pechinchando com os peixeiros ou marchantes, as vozes misturadas e confusa, típicas dos lugares com grande aglomeração. 

No interior do estabelecimento homens e mulheres já embriagados, falando alto, cantando acompanhando a música da dupla sertaneja Bruno e Marrone, “garçom, olhe pelo espelho, a dama de vermelho que vai se levantar...” (A DAMA DE VERMELHO, Bruno e Marrone. Gravadora Sony Music; Selo; RCA Records Label, 2003.), uma bela música que realmente conta a vida de um boêmio apaixonado por uma mulher que outrora era sua e que agora era de todos, ou seja, uma mulher da vida. Segundo Santos. “Os espaços, com suas imagens e sons, trazem representações fragmentarias como suporte de memórias diferentes, contratadas, múltiplas. As canções falam do bar, do cabaré, da taberna, do botequim como espaços públicos, em contraposição ao lar. [...]”. (MATOS, Maria Izilda Santos de. Op. cit., p. 82.)

Por outro lado vejo semblantes sombrios, “mutilados” pelo vício como se a própria bebida já estivesse consumindo-os. Nota-se pelo os braços descascados ou pele “escamosa” como a de um camaleão, aliás, isto me fez recordar quando em 1997, na Escola E. M. Murilo Rocha Aguiar, quando o Dr. Célio Marrocos Aragão (falecido), um antigo promotor da nossa cidade, foi convidado para dar uma palestra sobre o alcoolismo e citou sobre o comportamento do ébrio, as perturbações existentes, a exclusão social e as mazelas adquiridas, por exemplo, como a pele de camaleão (ressecamento).

Parece que esta sua declaração foi uma espécie de injeção porque fez com que algumas pessoas que estavam assistindo a palestra, dessem uma pequena olhada para o braço, pois naquela época, os jovens do ensino médio já tinham um contato com as bebidas alcoólicas, pois diversas vezes ao término das aulas alguns se dirigiam para o bar mais próximo. Como o Bar do Pombo já havia fechado, nos dirigíamos para o Bar Matriz e permanecíamos por lá ate a 01h:00 este episodio acontecia somente nas sextas-feiras. Graças, isto foi apenas momentos da juventude, pois muitos atualmente são trabalhadores, pais de família responsáveis, mas que em algumas ocasiões, não dispensam umas doses nos finais de semana.

Sabemos que a as bebedeiras constantes trazem prejuízos a aqueles que consomem como a degradação do corpo, problemas sociais, profissionais e podem desestruturar as famílias, assim como afirma Matos. “o alcoólatra perdia toda a energia, noção de honra e de conduta publica, do afeto pela família e amigos, das obrigações para a sociedade, podendo caminhar para a obsessão, para o impulso criminoso, além dos males que deixava para a prole degenerando a raça” (MATOS, Maria Izilda Santos de. Op. cit., p. 61). No entanto, percebi aqui na cidade de Ipu que as pessoas que entram no submundo do álcool não largam o vício e também não procuram assistências para se livrarem deste, preferem perambularem todos os dias pelas praças, na porta do mercado público e nos estabelecimentos comerciais ou bares do centro a espera de quem lhes pague uma cachaça.

Diferentemente de tempos atrás, quando a polícia prendia estas pessoas consideradas vadias ou por serem violentas em seu estado ébrio, a repressão por parte da mesma é branda, só entrando em ação se acaso houver uma desordem, mesmo assim são raras as aparições da policia quando há exageros. Lembro-me num sábado a tarde, em dezembro de 1989, um senhor embriagado saindo da porta do mercado com o rosto ensanguentado, após ser atingindo com um tamborete por um parceiro de bebida, após uma discussão, de imediato acionaram a polícia que se encontrava no centro, fazendo a abordagem e levando o agressor para sob custódia. Segundo Silveira:

“Ao situar o alcoolismo dentro de um quadro assustador de degeneração de todas as ordens, esses discursos foram responsáveis não somente por reforçar preconceitos já existentes, mas, sobretudo pela construção de um estigma muito forte, gerador da situação de exclusão social e de auto exclusão dos alcoolistas, compreendidos como doentes, criminosos em potencial que deveriam ser policiados, adestrados ou isolados do convívio social conforme as alegações de um saber que buscou obstinadamente vincular o consumo de álcool apenas como uma questão biológica, moralizante, não reconhecendo os fatores socioculturais que envolvem á pratica.” (SILVEIRA, Ajax C. Op. cit., p. 28.)

3.4. O ALCOOLISMO NA JUVENTUDE, A MIDIA COMO INFLUENCIADORA?
O uso indiscriminado das bebidas alcoólicas pelos jovens nos dias atuais é incontestavelmente comum, pois quando são “iniciados” nesse consumo, “caem de boca” no vício e que poderá se tornar um hábito corriqueiro, principalmente durante os finais de semana. Diversas vezes verifiquei o uso por jovens de faixa etária entre 15 e 18 anos, especialmente no início da década anterior entre 2001 e 2010. Algo que não era comum nas décadas de 1970, 80 e 90, ou seja, geralmente os jovens consumiam bebidas não alcoólicas como os refrigerantes e um ponche, mas é claro, havia as exceções, pois testemunhei jovens menores de idade na final da década de 1980 consumindo álcool, principalmente durante o carnaval. Nessa perspectiva, Fishman afirma. “Estudiosos do alcoolismo afirmam que existem cinco razões principais que levam um adolescente a beber: modelo dos adultos, curiosidade e experimentação; pressão dos colegas, prazer; problemas emocionais”. (FISHMAN, Ross. Op. cit., p. 47.)

Creio que somente após a segunda metade da década de 1990, este número de consumidores menores de 18 anos tenha aumentado expressivamente. Percebi, durante as festas dançantes promovidas pela Prefeitura Municipal de Ipu, alguns portarem bebidas compradas nos estabelecimentos locais e sem nenhum controle dos proprietários ou do Conselho Tutelar que não fiscaliza com frequência a venda, compra e consumo pelos jovens menores de idade das bebidas alcoólicas. Tal consumo é realizado nas praças durante os finais de semana e é notório nos bancos de alguma praça, observarmos litros de bebidas alcoólicas e inutilmente tentam disfarçar.

Em outras ocasiões, nas minhas andanças noturnas, também observei casos de confusões envolvendo tais jovens e com certeza, incentivados pelo álcool, quanto a isso, Ross Fishman ressalta:

“É particularmente importante saber os motivos que levam os adolescentes a abusar do álcool, pois a maior parte dos alcoólatras começa a beber nesta idade. Também a maior parte dos acidentes ou casos de violência ligados ao uso da bebida ocorre entre os jovens.” (FISHMAN, Ross. Op. cit., p. 46.)

Nesta perspectiva creio que o adolescente dos anos 1990 e o da primeira década do novo século, quando adquiria certa liberdade e claro por uma socialização com pessoas às vezes mais madura, tenha absorvido o hábito de beber, pois como citei, nem sempre o fator hereditário contribui para um jovem se entregar ao vício.
Acho que a adesão de um jovem ao tabagismo seja, digamos herança de vício do que o alcoolismo, pois a partir de quando um pai pede para um filho acender o cigarro e de imediato dar uma tragada, tem-se, logo, que a consequência é adoção do vício de fumar, porque amigos de infância afirmaram que foi deste modo que se tornaram fumantes. Neste contexto percebo que existe uma diferença entre o alcoólatra e o fumante, porque o alcoolismo traz prejuízos pessoais, econômicos e sociais, enquanto o tabagismo traz particularmente prejuízos a saúde, como afirma Silveira:

“[...] No caso do álcool, a dependência tem consequências extremamente destrutivas em nível pessoal e social. Já fumar excessivamente acarreta problemas de nível pessoal, mas não no relacionamento interpessoal. Os que fumam muito sabem que têm a maior probabilidade de desenvolver alguma doença como é o caso do câncer pulmonar.” (SILVEIRA, Ajax C. Op. cit., p.46.)

Particularmente, espera-se que um adolescente não siga os hábitos viciantes de um adulto, mas que imite aqueles que não façam uso de substâncias psicoativas e químicas como o álcool e o próprio cigarro, mas devo acrescentar que vivemos numa sociedade onde impera os “encantos mundanos” e de comportamentos que se modificam a cada geração, especialmente os atuais que seduzem o individuo com o consumismo exacerbado, além dos prazeres que o mesmo proporciona.

Esta dicotomia entre os hábitos passados e os atuais revela que existe uma má formação dos jovens, pois não pensam na construção de um futuro promissor, não obstante não compreendem que a juventude passa e que as responsabilidades virão. Sinto esta aversão entre o passado e o presente estampado nos hábitos joviais do cotidiano.

Os jovens geralmente quando tem o primeiro contato com o álcool, o consomem apenas como curiosidade assim como a entrada para outras substâncias psicoativas, afirmo isso, pois convivi com pessoas que trilharam por este caminho. Outras, por apenas experimentar para impressionarem os amigos, além da forte pressão que estes exercem sobre os iniciantes no hábito de beber e em outras ocasiões, pelo êxtase e prazer que o álcool proporciona e até mesmo por problemas emocionais. Já presenciei alguns casos de amigos perderem a namorada e esta “perda” se tornar o estopim para uma embriaguez acompanhada de prantos. Fishman faz uma ralação entre os problemas emocionais e geralmente pessoas que recorrem ao consumo de bebidas alcoólicas numa forma de acalentar os tais problemas, afirmando que não é a melhor solução: “uma das principais demonstrações de autocontrole diante de problemas e de determinação em resolvê-los é não recorrer a bebidas para fugir de momentos aparentemente difíceis”. (FISHMAN, Ross. Op. cit., p. 49.)

Na minha convivência com jovens da mesma idade, aproximadamente entre os 17 e 18 anos, na transição dos anos de 1980 para os 1990, percebi os jovens costumavam consumir bebidas alcoólicas no meio e finais do ensino médio (2º e 3º ano). No inicio somente os rapazes, mas depois algumas moças degustavam algum tipo de bebida alcoólica, embora timidamente o que era raro para aquela época.
Voltando ao assunto a respeito do tabagismo, recordo com lucidez no inicio dos anos 1980 que os comerciais envolvendo cigarros como um dos mais consumidos, a marca “Hollywood” que tinha como slogan, “Hollywood, o sucesso” e que apresentava jovens de boa aparência em ambientes saudáveis fumando cigarros numa constante alegria, numa completa satisfação.
Talvez estes comerciais tenham incentivado muitos jovens a se tornarem fumantes. Atualmente estes comerciais tratando-se do tabagismo traz um novo conceito sobre o vício, pois é comum visualizarmos nas embalagens o impacto que o fumo causa no organismo e um slogan que diz o seguinte: “não existe meios seguros para o consumo deste produto”. Será que a indústria de bebidas alcoólicas também estamparão nos seus rótulos os malefícios da ingestão do álcool? Isto pode ser possível futuramente, mas talvez seja algo que não se passa pela cabeça dos consumidores, nem dos produtores das bebidas alcoólicas. Conforme Silveira:

“Lembrem-se sempre de que o dinheiro gasto em cigarros ou em bebidas alcoólicas, é um dinheiro mal gasto. Temos visto muitas pessoas furiosas trazerem de volta aos comerciantes frutas ou alimentos que adquiriram e depois notaram que estavam estragados ou imprestáveis. Reclamam outro produto, ou o seu dinheiro de volta, e saem ainda fazendo alarde contra o comerciante que esta envenenando o povo com produtos deteriorados. Não obstante, este mesmo indivíduo ingere um cálice de pinga e compra um maço de cigarros sem muitas vezes se aperceber de que adquiriu um veneno pior do que uma fruta principalmente estragada [...].” (SILVEIRA, Ajax C. da. O Drama do Tabagismo: causas, consequências e solução. 3ª ed. São Paulo: Casa Publicadora Brasileira, 1982, p. 68.)

Se a mídia, naquela década, influenciou vários jovens ao tabagismo, com certeza no final desta mesma década a própria tenha influenciado vários jovens ao consumo das bebidas alcoólicas, principalmente a cerveja, embora com um teor mais brando que as destiladas, não deixam de ser uma substância psicoativa que vicie.
Como citei no inicio do parágrafo, foi no final dos anos de 1980 e início dos anos de 1990 que estes comerciais intensificaram, pois imagine um jovem ou qualquer pessoa que aprecie algum tipo de bebida alcoólica na frente da televisão, num dia de calor visualizando aquele comercial com muita gente bonita numa praia ou no bar degustando uma cerveja gelada e se dirigir-se ao bar mais próximo de sua casa e não cometer o mesmo ato daquelas pessoas do comercial? Eu já senti esta tentação como muitos outros. Luci Mara Bertoni enfatiza no seu artigo esta “sedução” a respeito das bebidas alcoólicas que a mídia expõe:

“As bebidas alcoólicas parecem fazer parte indissociável de nossas relações sociais e a mídia vem desempenhando um importante papel para que seu consumo seja cada vez mais difundido, especialmente o de cerveja. De maneira particular, as propagandas estão sempre relacionadas à juventude, à virilidade e ao prazer provocado pela ingestão de tais bebidas. Sol, praia, lazer, prazer e “corpos perfeitos” são a atração para isso.” (BERTONI, Luci Mara. Op. cit., p. 177.)

A curiosidade para experimentar outras bebidas quando a mídia estampava os comerciais a respeito também das bebidas destiladas. Uma vez durante as nossas saídas noturnas durante a primeira metade dos anos 1990, tivemos curiosidades para experimentar o Campari, pois aquele comercial era muito atraente, com uma linda mulher de vermelho saboreando a bebida, e nos incitava a consumir a bebida e numa destas festas bebemos pelo menos dois litros. Só que a experiência não foi muito agradável para alguns, porque houve náuseas e vômitos devido à ingestão exagerada, e no dia seguinte, uma terrível ressaca, algo já esperado, pois não estávamos acostumados com a ingestão de bebidas alcoólicas e, a partir desta experiência, percebi o perigo que o álcool provoca quando usado em demasia.

Por isso, as indústrias de bebidas investem muito dinheiro para expor seus produtos na mídia e claro com suas estratégicas de marketing, publicidade e em outras ocasiões usando pessoas influentes da mídia como atores, modelos, apresentadores de programa de auditórios e até jogadores de futebol para atrair as pessoas com o objetivo de consumirem seus produtos. Segundo Fishman. “O álcool existe enaltecido pela publicidade e encontra-se à venda em qualquer lugar das cidades. Isso facilita a adoção dessa droga nos rituais sociais e cria grupos de pressão, principalmente entre os jovens”. (FISHMAN, Ross. Op. cit., p. 46.)

Recentemente a indústria das destiladas, a Ypióca, marca genuinamente cearense e que em 2012 foi vendida para a o grupo de bebidas inglês Diageo, que mantém também o monopólio do produto Smirnoff por R$900 milhões e contratou nada mais nada menos que o ator norte americano John Travolta para um comercial na cidade do Rio de Janeiro com o slogan “vamos brasilizar”, pura estratégia de marketing para atrair consumidores. Por incrível que pareça, não é que está dando certo, pois numa dessas festas promovidas pela Prefeitura Municipal de Ipu, na ocasião, no aniversario da cidade (2013), alguns jovens portava dois litros do produto e clamavam em coro, “vamos brasilizar”. Eis ai a influência da mídia na consumação das bebidas alcoólicas.

Falando da fabricação das bebidas alcoólicas nas cidades interioranas é comum à existência de alambiques ou aqueles fabricantes artesanais especialmente da cachaça sejam na zona urbana quanto na rural em especial, pois na região serrana da cidade de Ipu são comuns os alambiques onde a maioria da produção alcoólica abastece os estabelecimentos comerciais da cidade de Ipu, bem como cidades vizinhas e também Fortaleza onde há uma grande aceitação deste produto ou em outras ocasiões até para regiões longínquas como a Norte e Sudeste, pois muitos preferem a cachaça nordestina em lugar das produzidas na sua região.
Conversei com um destes fabricantes de bebidas artesanais, o Senhor Francisco Martins que me relatou o seguinte: “eu tinha registrado uma fabrica de bebidas. No tempo das bebidas que tinha muita saída a Ginebra era uma delas e trabalhei vários anos com este produto, sofri bastante, saia daqui com uma grande carga para o Maranhão [...]”. (Francisco Gonçalves Martins, 90 anos, viúvo, comerciante. Entrevista realizada em Ipu-Ce, aos 10 de outubro de 2010.)

Atualmente o Senhor Francisco Gonçalves Martins trabalha apenas com a fabricação de licores, proprietário de uma venda deste produto com o nome “Licor do Amor”, onde o mesmo relatou que muitas pessoas da cidade compram seu produto e , é claro, turistas, pois a venda fica situada estrategicamente na rua que dá acesso ao cartão postal da cidade de Ipu, a queda d’água conhecida por “Bica do Ipu”.

A publicidade a respeito das bebidas alcoólicas se tornou muito mais impactante no final dos anos de 1990 e início dos anos 2000, pois no esporte abarcando varias modalidades com exceção é claro, do atletismo, os comercias de cervejas, das bebidas destiladas estão estampadas nos estádios, nos carros de competições automobilísticas e ate patrocinam eventos esportivos. Um grande exemplo é a marca holandesa Heineken que é a empresa que patrocina a “Champion’s League”, mais conhecida para nós brasileiros como a “Liga dos Campeões da Europa”, mas não deixa de ser uma influência para os consumidores, pois há quem entre os jovens a curiosidade de consumir tal produto que há poucos meses já chegou aqui na cidade de Ipu, embora um pouco mais cara que as outras marcas Antártica, Skol, Brahma, etc., conforme Lima:

“No Brasil, estima-se que tal faturamento esteja por volta dos 20 bilhões de reais ou mais [...]”. Dentro deste contexto, a indústria de cerveja emprega mais de 40.000 pessoas diretamente, e gera mais de 120.000 empregos indiretos. A contar com outros postos de trabalhos podemos estimar a grande força geradora de recursos representadas por esta indústria. Somando os postos de trabalhos da indústria do vinho e de destilados (cachaça), constata-se o vigor das indústrias de bebidas alcoólicas no Brasil. Se acrescentarmos toda rede comercial (mais de 10 milhões de pontos de venda), o numero de pessoas engajadas é bem elevado.” (LIMA, José Mauro Braz de. Op. cit., p. 23.)

Nos bares mais sofisticados já é possível percebermos jovens degustando a cerveja holandesa. Neste caso, podemos afirmar que uma cerveja tenta sobressair melhor que às outras concorrentes nas suas campanhas de publicidade como “esta é a mais gostosa”, “paixão brasileira”, “a número um”, “uma grande cerveja”, enfim como afirma Bertoni:

“A propaganda começa com uma paisagem de deserto, há um senhor sentado numa cadeira em frente a um bar que possui, varanda duas geladeiras com cervejas. Chega um grupo de “motoqueiros”, eles pegam uma cerveja não identificada, e fazem gestos de que esta é a melhor. Em seguida chega um jovem motociclista acompanhado de uma jovem e abre a outra geladeira para pegar a cerveja para qual se está fazendo propaganda. Todos riem do casal. Enquanto estão rindo, passa um caminhão, levanta poeira e suja todas as latas de cerveja, porem, as cervejas do casal estão protegidas por um papel de alumínio que é o diferencial da cerveja. Ambos se entreolham, riem e abrem a sua cerveja. O senhor da cadeira ri da sujeira dos outros questão completamente sem graça e a propaganda termina com todos bebendo a mesma marca da cerveja, cujo slogan admite como a única de verdade.”(BERTONI, Luci Mara. Op. cit., p. 178  )

Geralmente, as propagandas de cervejas, vinhos, bem como as destiladas vêm acompanhadas de slogans como: “Beba com moderação” e “Se for dirigir não beba”, numa forma de conscientizar quem se utiliza das bebidas alcoólicas de quem bebe demasiadamente e aqueles que misturaram bebida com o volante, mas todos estes alertas não diminuem o número de alcoólatras muito menos os acidentes de trânsito, tanto nos centro urbanos como nas estradas, fato que iremos abordar no item “Violência e Desordem”, segundo Bertoni:

“No tocante às propagandas de bebidas alcoólicas, a mídia vem fazendo uma mobilização no sentido de garantir a sua veiculação. Por isso foi criado o Conselho Nacional de Auto-regulamentação Publicitaria –CONAR- que, em 1º de outubro de 2003, aprovou um código para regulamentá-la as propagandas de bebidas alcoólicas, fazendo que as indústrias veiculassem em suas propagandas, alertas tais como: “beba com moderação” ou “se for dirigir não beba”. Entes ou outros alertas, definidos pelo CONAR (2006), aparecem impresso nos rótulos das bebidas e/ou são transmitidos em propagandas nos mais diversos meios de comunicação [...].” (BERTONI, Luci Mara. Op. cit., p.177 - 178.)
 
O consumo de álcool entre os jovens menores de 18 anos durante as ultimas décadas aumentou substancialmente, pois é possível testemunharmos a adesão ao vicio, principalmente nas festas joviais na qual a chamam de Rave, onde são consumidas cervejas, além das destiladas. No meu modo de ver, tais festas seriam semelhantes à antiga tertúlia, porém naquele tempo os jovens não tinha acesso ao álcool como é comum no cotidiano. Mas são hábitos que se modificaram ao longo dos anos, não que eu ache normal um jovem menor de 18 anos empunhar um copo de bebida seja de qual gênero for, mas como não há fiscalização por parte das autoridades competentes é difícil solucionar o problema do alcoolismo na juventude. Muitos que começaram a beber por volta de 10 anos atrás hoje são alcoólatras e as perspectivas de vida são incertas e se tornando um verdadeiro problema social.

Os efeitos negativos futuros para um jovem que se entrega ao vício são catastróficos e avassaladores, pois o vício pode minar suas esperanças de um futuro promissor, de suas responsabilidades como ser social, pois a juventude é imatura e não tem preocupações com o que virá a frente, talvez pense que é eterna e que nunca irá envelhecer, mas a juventude é algo que passa num piscar de olhos e quando se percebe já são adultos e sem nenhuma ocupação formal, porque ainda vivem debaixo das asas dos pais e como não tem, digamos, um oficio que lhes deem a garantia de autonomia, sustentam-se no perigoso vício do alcoolismo e assim enveredam por caminhos incertos, segundo Lima:

“Outros problemas relacionados ao uso de que o álcool entre jovens, são, também, de grande relevância, no tange de outros aspectos da vida: os problemas relacionados com a saúde (biopsicossocial), o desempenho escolar ou acadêmico, os relacionamentos sociais, o comprometimento com a família, a atividade relativa ao trabalho etc., enfim, com todos os cenários nos quais os jovens estão inseridos. Estas alias, não é uma questão só do nosso pais, mas grande parte dos países do mundo, onde o consumo de bebidas alcoólicas vem aumentando, de modo preocupante nas últimas décadas.” (LIMA, José Mauro Braz de. Op. cit., p. 128.)

Quando somos jovens vivemos numa certa pressão social onde comportamentos e hábitos existem, sejam de boa ou de má índole, pois a sociedade é munida desses paradoxos e a todo o momento, somos sujeito as influências como o hábito de consumir álcool, por exemplo. A companhia de amigos mais velhos ou vinculados a certo grupo é uma forma que se cria tal hábito, pois como já relatei é fora do ambiente familiar que se adquire o tal vício, já que existe certo receio do jovem de se expor ao vício, temeroso de uma repreensão por parte da família e tende a esconder dos parentes que é usuário do álcool.

Durante o final a segunda metade da década do novo milênio, a indústria fonográfica, em conjunto com a grande mídia, lança varias músicas, especialmente algumas que falam de bebida e mulher, esta em sentido pejorativo denominando-a por vezes de “vagabunda”, “rapariga”, entre outros sentidos que satirizam negativamente a mulher, onde os mais conservadores tendem a ignorar e substancialmente criticar. Diferentemente das canções que destacavam o boêmio e até uma aclamação a cachaça como na música de Oswaldo Bezerra. “A cachaça amiga, não há quem me diga que não tem valor, por ela ser tão boa, vivo assim a toa sem saber se impor. Ela dá coragem, ela dá vontade pra inspiração[...]” (CACHAÇA AMIGA, Oswaldo Bezerra, Copacabana, 1983.)

Gênero musical pela qual se atribui o nome de forró eletrônico no Ceará e em outras regiões do Nordeste por se utilizar de vários instrumentos eletrônicos em contrapartida ao forró autêntico onde se usava a sanfona o zabumba e o triângulo. Devo citar uma dessas músicas que faz apologia à velha cana da Banda de Forró
Garota Safada.

“Eu preciso de você, só você me faz sorrir.
E quando você esta do meu lado eu me sinto mais feliz....
Olha cachaça.
Cachaça, cachaça eu te amo.
Cachaça, cachaça, cachaça eu te adoro.
Cachaça, cachaça você é o meu vício.
Preciso te dizer que sem você eu não vivo.”

Concluindo, estas músicas de certa forma influenciaram na década passada e da mesma forma nesta um grande contingente de jovens ao consumo das bebidas alcoólicas, pois é possível observamos estas pessoas bebendo sem nenhuma moderação, às vezes, além da conta, chegando a um estado deplorável como um provável coma alcoólico e até mesmo, tendo que ser conduzidos até o hospital da cidade de Ipu, no intuito de tomarem glicose para amenizar seu estado ébrio, algo comum nas festas, sejam promovidas pelo poder público, sejam as particulares. Outra música do gênero que identifica o que citei a respeito do consumo do álcool entre os jovens e é claro a sátira negativa à mulher é a do grupo Aviões do Forró:

“Vou cair no pé.
Amanhecer cheio de mulher
Fazer aquele cabaré na calçada....
Quer ir mais eu vamo.
Quer ir mais eu vambora.
Beber, raparigar.
Fazer zueira.
Pra beber não tem hora.”

3.5. DESORDEM E VIOLÊNCIA PELA EMBRIAGUEZ
A desordem e a violência, seja ela de qual gênero for, também são fatores que podem estar associados ao constante consumo do álcool, pois são notórios estes casos e podemos observar tais fatos durante o noticiário, sejam no jornal escrito ou falado radio e televisão, os acidentes nas alto-estradas, bem como os de origem urbana e a violência doméstica praticada por conjugues que quando não deixam sequelas, matam, segundo Lima:

“A violência, como formas de destrutividade humana, sempre nos preocupou, mas foi no século XX e inicio deste que nos defrontamos com níveis imagináveis e insuportáveis dela como fenômeno social. Hoje, boa parte da violência urbana esta envolvida com o álcool outras drogas, de forma marcante. Sobretudo nas grandes cidades, entre estas Rio e São Paulo, as taxas de mortalidade retratam um cenário onde o traficante de drogas e o crime organizado se destacam.” (LIMA, José Mauro Braz de. Op. cit., p.137.)

Tratando-se da violência a respeito do consumo sem controle do álcool, devemos abordar que a tal violência não é apenas privilegio dos grandes centros, pois os núcleos urbanos de médio e pequeno porte também se deparam com situações envolvendo a violência por uma embriaguez exagerada e crimes são elementos constantes. A respeito desta temática envolvendo o alcoolismo e em paralelo aparecem as drogas mais comuns, estando também associadas e outras como a maconha e o craque, porque muitos usuários destas duas drogas ilícitas, de certa forma, também são usuários das bebidas alcoólicas e uma vez associadas, o perigo para a sociedade é real como nos explica Silveira:

“Afirmava-se que o álcool tornava os homens embrutecidos, selvagens, feras, primitivos, trazendo à tona seus instintos bárbaros e bestiais. Sua razão passava a ser obtusa, com falta de raciocínio e perda da auto critica. Assim, apontava-se que o uso do álcool desintegrava o caráter moral, alterando o raciocínio, ao mesmo tempo despertando “certos instintos” brutais do homem, estimulando a ferocidade, as paixões, os ciúmes e nessas condições facilitando o crime. Essas afirmações reforçam que o homem devia ser equilibrado e educado para viver em sociedade, de cumprir seu papel e primar pela razão.” (SILVEIRA, Ajax C. Op. cit., p. 69 - 70.)

São vários os casos de desordem envolvendo indivíduos que não conseguem controlar seus ânimos quando estão à mercê da velha cana e perdem a linha. Às vezes por motivos banais; outros, por uma desavença com outros ébrios e até mesmo com pessoas em seu estado sóbrio. Como já citei, existe uma “mutação” quanto ao humor das pessoas que fazem uso constante do álcool como se entristecer, em algumas ocasiões, chorar, serem ranzinzas no seu estado lúcido e se tornar verdadeiros “palhaços” num comportamento mais infantil do que adulto. Quando embriagados, tímidos e depois descontraídos; calmos e posteriormente violentos. São índoles transformadas pelo o estado de êxtase provocado por varias dosagens de álcool no organismo, afetando seu sistema nervoso, conforme Santos:

“O ébrio descrito fala muito mais do que deve, sem preservar a intimidade, a reserva, os segredos, confortando as ordens sociais (...). O “gaiato”, que fazia graças, em geral, eram inconvenientes, e alguns autores destacavam uma grande variação de manifestação nesse primeiro momento, que iriam do expansivo-alegre ao meditabundo-taciturno-tímido: tornavam-se agitados, nervosos, irritáveis, discutindo com ênfase, ainda locomoviam-se com facilidade em companhia de outros, causavam danos às propriedades, “agindo como garotos”, atiravam pedras. Pode-se perceber que se questionava um comportamento masculino mais extrovertido, aproximando ao ridículo, comparável ao macaco e as crianças.” (MATOS, Maria Izilda Santos. Op. cit., p.59.)

Um dos fatos mais comuns tratando-se de violência e desordem urbana por causa do alcoolismo é violência doméstica. Devo salientar que ela não está restrita apenas ao sexo masculino, mas também o feminino, pois no cotidiano o acesso das mulheres ao alcoolismo não é mais questão de tabu, algo que já foi fragmentado há algumas décadas, pois antes só as profissionais do sexo é quem faziam uso contínuo do álcool, porém este hábito tornou-se frequente no lar, desestruturando a principal instituição da sociedade que é a família. Seria um costume inato o consumo do álcool? Creio que este assunto possa a vir ser contraditório, porque como já relatei no inicio deste capítulo, as causas do alcoolismo na família nem sempre possa estar relacionado à hereditariedade, mas por influência do meio.

Então, com as quebras de tabus e as mutações sociais durante as últimas décadas é possível observarmos atualmente na cidade de Ipu, o vínculo do sexo feminino com o consumo do álcool e uma possível perda de identidade, porque outrora, a mulher era vista como ser dotado de recatos, o “arcabouço da família” ou a “mola mestra”, a responsável por manter um ambiente saudável dentro do lar, enfim, porém este paradigma foi quebrado e algumas mulheres se desvinculam de seu verdadeiro propósito e seu papel dentro dos parâmetros sociais.
Podemos associar o álcool à violência no que diz respeito ao ciúme, pois é um sentimento que está arraigado à própria mulher ou até mesmo a concubina, pois um cliente assíduo talvez pensasse ser proprietário da mesma devido as constantes noites de prazer com a tal e como já relatei a respeito das rixas, principalmente em ambientes onde predomina o vício, a embriaguez, o prazer e a luxúria, no caso o cabaré.

Em outros casos, o ciúme gerado pela embriaguez pode estar vinculado a uma espécie de paranoia psíquica e um suposto ciúme até da própria companheira, pois esta, por sua vez, demonstra certo repúdio ao dividir o leito com o marido alcoolizado, segundo Pedro Cardos Filho. “A indiferença da companheira para o relacionamento sexual, durante o período de bebedeiras com embriaguez frequente, aumenta no alcoólatra o ciúme e a suspeita de infidelidade”. (FILHO, Pedro Cardoso. Op. cit., p. 89.)

Um caso envolvendo a embriaguez e que teve repercussão até na mídia estadual foi o assassinato de mãe e filha durante o mês de maio de 1993. Realmente, foi uma tarde macabra e que chocou toda a sociedade ipuense. Um homem munido de uma “insanidade” provocado pelo alcoolismo foi protagonista de um crime, concordando com o que diz Santos: “As discussões em torno do alcoolismo como fator indutor ao crime estiveram centradas nos estudos da medicina legal, já que nos tribunais, cotidianamente, as discussões sobre o alcoolismo e violência apareciam”. (MATOS, Maria Izilda Santos de. Op. cit. p. 70.)

“De Assis” era o nome do assassino que naquela tarde de quarta feira, 19 de maio de 1993, cometeu um crime bárbaro, quando na ocasião em que cometera o delito tentou estuprar uma mulher quando a mesma lavara roupa e não conseguindo o objetivo empunhou uma faca desferindo alguns golpes na sua vitima ceifando-lhe a vida e consequentemente observada pela a filha e como o assassino não queria testemunhas a “pobre menina” teve o mesmo desfecho de sua genitora. 

Não demorou nem 24 horas, a polícia conseguiu prender o meliante numa residência nas proximidades da região serrana da cidade de Ipu conhecida como Várzea do Jiló e conduzindo-o ao cárcere na Antiga Cadeia Publica de Ipu, atual Casa de Cultura Walderez Soares, onde se iniciou um interrogatório do suposto criminoso e segundo testemunhas tudo levou a crer que se tratava realmente do assassino. Com relação a cadeia, segundo Foucault. “A prisão um quartel um pouco estrito, uma escola sem indulgência, uma oficina sombria, mas levando ao tudo, nada de qualitativamente diferente. [...]”. (FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento das prisões. 29ª Ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2004)

Segundo o inquérito policia l (Inquérito Policial Nº. 11 do dia 20 de maio de 1993, relatando o Duplo Homicídio do dia 19 de maio de 1993, localizado no arquivo do Fórum de Ipu, Dr. Francisco Pereira Pontes), o duplo assassinato, aconteceu um dia antes do linchamento, 19 de maio de 1993 por volta das 15h30, no Bairro do Cafute, zona oeste da cidade de Ipu, onde Maria Paiva de Oliveira (25) e Francisca Josilene Paiva de Oliveira (10) foram encontradas mortas com varias perfurações à faca, mostrando como foi terrível este crime. Após a prisão e já encarcerado, a polícia não teve como conter a população enfurecida, inclusive pedindo reforço ao destacamento de Tianguá/Ce. Inutilmente, pois era impossível conter os ânimos dos populares. Lembro bem quando meu tio que na ocasião era “maestro” da Banda de Música e por consequência do acontecimento suspendeu o ensaio e como a sede ficava próximo ao hospital, testemunhamos alguns policiais, portando armas de grosso calibre com as cabeças feridas por pedras supostamente atiradas pelo público.

Creio que este foi um erro da policia conduzi-lo para a cidade, pois há algum tempo, quando a população soube da prisão do assassino, se dirigiu para o local onde o “monstro” estava trancafiado. Eram dezenas de pessoas enfurecidas de varias localidades da cidade e não paravam de cessar, pedindo a cabeça do assassino. A quem diga que quem incitou a população a se dirigir para o local foi o locutor da Rádio Iracema de Ipu, Bosco Farias, mas tratando-se de um crime desta natureza, talvez nem precisasse incentivar a população, pois a comoção associada à fúria estava estampada em cada rosto daquele fatídico 20 de maio de 1993, segundo Jairo Alves Gomes, graduado em história. “A multidão quebrou os cadeados dos portões que dava acesso ao interior da cadeia e arrombando o portão da cela coletiva, conhecida como “geraldão”, onde “De Assis” tremia de medo, desesperado pela morte que se aproximava. Tentou desesperadamente esconder-se dentro do banheiro, como último recurso para escapar do seu cruel destino. (...) Mas já era tarde! “De Assis” foi arrancado com violência e trazido pra frente da Cadeia, onde sua vida foi ceifada por pedradas na cabeça”. (104 GOMES, Jairo Alves. A Cadeia Pública de Ipu: A cadeia Pública e a Violência Coletiva, (1933-1999). Ipu-Ceara: Monografia de Graduação em História da Universidade Estadual Vale do Acaraú –UVA. 2012, p. 49.)

Além da violência nos bairros periférico e daqueles acontecidos no prostíbulo da cidade de Ipu durante o final da década de 1970 até a primeira metade dos anos 1980, destaco dois episódios que marcaram negativamente o Pavilhão Bar, ponto de encontro da juventude local. O primeiro foi à morte de uma pessoa bastante conhecida da sociedade ipuense em maio de 1994, envolvendo um funcionário dos Correios Edilson César Martins e dois rapazes embriagados da cidade de Crateús que desde cedo procuravam encrenca e nesta noite trágica de domingo, num confronto corpo a corpo com um dos rapazes que portava uma arma de fogo, a mesma disparou, atingindo de cheio o peito ceifando a vida do funcionário público e uma bala perdida que atingiu o pescoço de um jovem comerciante, chamado Carlos Humberto, proprietário de uma locadora de vídeo games e que dias depois veio a óbito devido à gravidade do ferimento.

Este crime, pelo o que levantei a respeito não teve um desfecho, porque parece que alguns dos parentes e amigos da vitima prendeu um dos rapazes e deu um fim na sua vida, após saberem que o Sr. Edilson não havia resistido ao ferimento. Anos depois, os supostos autores foram julgados e por não haver provas concretas contras os réus foram absolvidos do crime. Outros casos a respeito de violência também ocorriam, mas eram apenas brigas de jovens e que rapidamente cessavam com a turma do “deixa disso”:

“Pelo conselho de sentença, na sessão de julgamento dos réus foi reconhecida a tese levantada pela defesa, de que os membros não cometeram os crimes que lhes foram atribuídos pelo ministério publico, tendo o mm. Juiz prolatado sentença absolvitória. Foi pelo mm. Juiz designado o dia 25/11/97, as 08:00 horas, parar sessão de julgamento dos réus.” (Processo nº: 800-95.2000.8.06.0095 art. 121§ 2º CPB. Sobre o crime de esquartejamento e ocultação de cadáver na cidade de Ipu em maio de 1994.)

Outro foi durante o carnaval de 2004 quando num tiroteio, uma bala perdida atingiu uma jovem matando-a. Estes episódios repercutiram negativamente para este local, o calçadão do Pavilhão Bar, que aos poucos os jovens foram se esvaindo e atualmente são poucas as pessoas que frequentam este lugar. Só recebe um público mais expressivo durante os novenários do Padroeiro São Sebastiao (janeiro) e de São Francisco (setembro/outubro), no período carnavalesco, ou quando a Prefeitura Municipal de Ipu promove algum evento festivo como a Festa do Município na Praça da Estação Ferroviária que é bem próximo a este bar.
Coincidentemente, um ano apenas separam os dois crimes na cidade de Ipu, as mortes da mãe e filha, seguidas do linchamento do assassino e o crime do Pavilhão Bar e por incrível que pareça no mesmo mês (maio). As pessoas ficavam apreensivas quando se aproximava o mesmo mês em 1995, mas foi apenas uma expectativa negativa e não houve nada de aparente durante o mesmo período relativo aos anos de 1993 e 1994, mas são fatos que ainda estão bem vivos na memória dos ipuenses e que também são motivos para se levantar um debate aonde muitos atribuem tais tragédias, associadas ao alcoolismo.

Um fator comum por mortes provocadas pela embriaguez são os acidentes de trânsito, tanto na cidade como também nas estradas estaduais ou federais, pois o cosumo do álcool é algo comum entre os motoristas e gera o que chamamos de imprudência, colocando a sua vida em risco bem como de outros motoristas e pedestres. Fato comum na cidade de Ipu, especialmente nos finais de semana, estes imprudentes acabam por se tornar assassinos em potencial, pois são responsáveis diretos pelos óbitos no trânsito movidos pelo consumo das bebidas alcoólicas. Segundo Silveira: “Estima-se que 72% dos acidentes de transito no Brasil envolveram uma pessoa alcoolizada. Os acidentes não são provocados somente por profissionais condutores de veículos automotores. Também podem acontecer com motoristas amadores ou outras pessoas que assumem a responsabilidade de dirigir em estado de embriaguez alcoólica”. (SILVEIRA, Ajax C. Op. cit., p. 95.), a exemplo do inquérito policial sobre embriaguez ao volante num flagrante feito pela policia de Ipu em uma via pública. “Consta incluso inquérito policial que, na madrugada do dia 28 de maio de 2013, por volta das 00h30, na Rua Teles de Sousa 406, Altos dos 14, nesta comarca de Ipu, Francisco Dias Ferreira, qualificado fl. 10, conduzia veículo alto motor, na via pública sobredita sobre influencia do álcool.” (Inquérito policial nº 059/2013 (proc. 5802-89.2013) sobre embriaguez ao volante em via pública.)

As ruas do Ipu se tornaram uma espécie de pista para corrida ou rally, quando nos finais de semana pessoas movidas de uma embriaguez excessiva conduzem seus veículos automotivos em alta velocidade onde vias públicas permitem a velocidade mínima entre 40 e 60 km, presenciamos seus veículos em velocidades entre 80 e 100 km, desrespeitando o que determina as leis impostas no trânsito. Outros casos são os acidentes nas Rodovias Estaduais ou também os acidentes como aponta o inquérito policial:

“Consta incluso no inquérito policial no dia 18/12/2013, por volta das 19h30, na Rodovia Estadual 187, localidade da Várzea do Jiló, zona rural, nesta comarca de Ipu, Antônio Freire Duarte, qualificado a fls. 12, conduzia veículo automotor com a capacidade motora em razão da influencia do álcool. Segundo restou apurado, na data dos fatos, o denunciado conduzia o veículo Polo, marca Volkswagen, Placas HXY 4099, pelo local descrito acima quando envolveu em um acidente automobilístico com um veiculo D-20. Policiais militares, em patrulhamento, após serem comunicados do fato, abordaram o denunciado para a fiscalização momento em que se constatou que este ostentava sintomas de embriaguez.”(Inquérito policial nº 6576-22. 2013, sobre embriaguez ao volante em uma Rodovia Estadual na zona rural de Ipu.)

Para tentar diminuir o número de acidentes envolvendo o trânsito, são feitas constantemente campanhas antialcoólicas, principalmente durante os feriados prolongados como o Carnaval, Semana Santa, e os chamados “feriadões” como o feriado de Corpus Christi.
Mesmo com a conscientização são vários os números de acidentes, especialmente nas autoestradas federais e umas das maiores causas, quando não é a imprudência é a embriaguez misturada com o volante e os telejornais neste período divulgam na mídia vários acidentes, levantando números ocorridos durante o feriado em relação ao ano anterior do mesmo período. Geralmente, a mídia estampa nos comerciais o slogan “se for dirigir não beba”, como forma de alertar para o perigo do álcool ao volante. Mas, pelo que percebi parece que não causa muito efeito nos motoristas, pois muitos não respeitam a chamada “Lei Seca” e o resultado negativo são os vários feridos e muitas mortes durante os feriados. Segundo Lima:
“Nos últimos anos, o Brasil vem assistindo, no seu cotidiano, a milhares de mortes anunciadas, de certa forma evitáveis provocadas pelos acidentes de transito em nossas estradas. Somos um dos primeiros países no índice de mortalidade por causas externas, e os acidentes são a primeira causa de morte na população jovem de 18 a 29 anos (a segunda entre todas as causas). Conforme dados recentes morreram mais de 35.000 pessoas em 2006 [...]. Contudo, a estimativa de mortes por acidentes, segundo dados de outros autores, passa de 40.000, atualmente. Concordamos que esta observação, pois os sistemas de notificação e a própria cultura dos não-registros nos Boletins de Ocorrência (B.O) dos hospitais, contribuem para um numero bem menor do que o estimado.” (LIMA, José Mauro Braz de. Op. cit., p. 105 e 106.)

3.6. ALCOÓLICOS ANÔNIMOS: “VENHA E TRAGA MAIS UM”
Muitas pessoas imaginam que os Alcoólicos Anônimos é uma espécie de facção religiosa e que cura dos males do vicio do álcool aqueles que procuram por esta irmandade. A irmandade foi fundada em 1935 com intuito de resgatar para a sociedade aqueles degenerados pelo vício desenfreado do álcool. Muitos a procuram numa forma de minimizar os problemas causados pelo álcool e reestruturar sua condição de ser social antes perdida neste submundo. O caminho é árduo e tortuoso, mas o que vai garantir para o individuo é a sua perseverança, abstenção da cachaça ou outra substancia a base do álcool. Creio que quase todas as cidades brasileiras possuam o grupo A.A, pois existe um grande contingente de dependentes químicos se tratando do álcool nestes núcleos urbanos e as mazelas sócias produzidas pelo uso constantes das bebidas alcoólicas, por isso estes grupos tentam atrair com o seu mútuo auxílio, um número expressivo de “adeptos” para a irmandade, como afirma Silveira:

“ANONIMOS (A.A.): Constitui-se num movimento ou irmandade fundada em 1935 por dois alcoólatras que em poucos anos se impuseram com eficiente meio de conseguir a reabilitação de alcoólatras. Contam no momento com mais de um milhão de membros em todo mundo, formando 25.000 grupos em mais de 92 países. Possuem um bom número de livros e folhetos que distribuem com zelo e muita dedicação. Eles mesmos fazem sua definição nos seguintes termos: “Alcoólatras Anônimos” é uma irmandade de homens e mulheres que se ajudam mutuamente a manter sua sobriedade e que se dispõem a compartilhar livremente sua experiência de recuperação com qualquer um que possa ter problema com a bebida.” (SILVEIRA, Ajax C. Op. cit., p. 184.)

Durante as três visitas que fiz ao grupo A.A. da cidade de Ipu, fundada em 26 de julho de 1986, constatei que o grupo havia aumentado para um número superior a trinta, pois na sua antiga sede localizada no prédio do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Ipu, há alguns anos atrás percebia que poucos frequentava esta irmandade, creio que não chegava a uma dúzia de membros, mas em pouco mais de uma década o número de pessoas triplicou.
Visualizei algumas pessoas que em outras épocas eram alcoólatras em potencial e que ao entrar no seu estado inebriante protagonizavam as mais absurdas cenas, arrancando risos de alguns e repúdio de outros, principalmente durante os meses festivos de Janeiro e Fevereiro, pois me recordo que enquanto a Banda de Música tocava os tradicionais dobrados um desses frequentadores do A.A que hoje é regenerado, dançava no patamar da Igreja Matriz aos olhos esbugalhados do Monsenhor Moraes, claro, este desaprovando tal atitude e aquelas senhoras que faziam ou fazem parte do Apostolado da Oração, balançando a cabeça ao passar pelo “dançarino”. Algo que me intriga a respeitos desses sujeitos é que sempre quando estão embriagados, frequentam as novenas e missas será que em seu estado sóbrio tomariam a mesma atitude? Sempre acontecem fatos como este nos novenários na cidade de Ipu, segundo Silveira:

“As práticas de autoajuda inspiradas direta ou indiretamente no modelo A.A tornaram-se influentes em outras formas de tratamento de comportamentos compulsivos, mas, apesar de sua origem mais laica, o modelo do A.A tem se tornado parte de um movimento mais amplo de via devocional no recrutamento religioso para o abandono ou a substituição de dependências (entre as quais a própria devoção religiosa em suas formas extremas também poderia ser incluída).” (SILVEIRA, Ajax C. Op. cit., p. 193.)

Assim, o A.A como uma entidade de recuperação na cidade de Ipu mantem relações estreitas com outras instituições como os hospitais locais que objetiva a recuperação dos “doentes”, apesar de haver certo confronto com a medicina que detém a ideologia da tal recuperação, em contrapartida o A.A usa a sua filosofia dos Doze Passos como uma espécie de terapia sem necessitar de procedimentos profilaxos vinculados à medicina.
Visto deste ponto de vista, percebo que o A.A possa de certa forma, possuir tais forças no intuito de libertar o viciado e devolvê-lo a sociedade, pois em algumas ocasiões pessoas que são internados em clinicas de desintoxicação ou que tomam algum medicamento contra o alcoolismo podem a vir ter uma recaída e uma vez acontecendo tal fato o paciente retorne ao vício mais ferrenhamente do que antes da sua internação.
Não posso afirmar ou concordar com tal fato, mas reconheço que de todas as pessoas que frequentaram ou frequentam o A.A da cidade de Ipu, jamais voltaram a beber novamente, pois acreditam que a volta ao vício os tornariam piores do que já eram, segundo afirmação de um dos frequentadores da irmandade.
Durante a reunião ouvi falar dos “Doze Passos Sugeridos” e as “Doze Tradições” para a regeneração da pessoa que tem problemas com o alcoolismo, ou seja, para uma pessoa ingressar na irmandade basta ter a boa vontade de parar de beber ou “evitar o 1º gole”, este é um dos lemas da irmandade, além daquele que diz o seguinte: “Se o seu caso é beber, o problema é seu. Se o seu caso é parar de beber, o problema é nosso”. Não é necessário segundo o presidente do grupo ipuense, o Senhor Pedro Nicolau, pagar algo para ingressar no A.A, mas há algumas contribuições dos próprios membros para pagar taxas de luz e água, aluguel ou um lanche que é ofertado aos membros. Com relação ao tratamento, afirma Silveira:

“A base do tratamento esta firmada nos doze passos e o método utilizado é o fazer dos próprios membros “terapeutas”, compartilhando entre si das experiências semelhantes no sofrimento e na recuperação do alcoolismo. Não fazem uso de medicamentos, usam isto sim, os doze passos e as doze tradições que Procuram estudar e pôr em pratica em suas vidas.” (SILVEIRA, Ajax C. Op. cit., p. 185)

O A.A não faz distinção de sexo, mas não vi nenhuma mulher participando do grupo, apesar de algumas exagerarem no consumo das bebidas alcoólicas como citei nos subitens anteriores, porém acredito que talvez seja porque o número de mulheres vinculadas ao vício seja mínimo em relação à população masculina. Mas devo dizer que tanto mulheres quanto os homens não procuram a ajuda do A.A por não se considerarem alcoólatras ou “doentes”, mesmo que bebam em demasia. Silveira trata este assunto com mais relevância tratando-se da questão de uma possível cura para o alcoolismo. “O programa de recuperação proposto pelos Alcoólicos Anônimos tem como ponto de partida evitar o primeiro gole, a fim de conseguir abstinência absoluta através da experiência, força e esperança, almejando-se a sobriedade e vivendo-se apenas um dia de cada vez sem ingerir bebidas alcoólicas”. (Ibidem, p. 140 - 141.)

O grupo dos Alcoólicos Anônimos também não faz distinção das pessoas que frequentam a irmandade, pois todos são iguais tratando-se desta patologia (alcoolismo) e o dever da entidade é recuperar o doente, não expondo quem é, porque se trata de um anonimato, mas o “doente” tem que ter forças para superar o vício dentro do grupo, pois a partir do momento em que anônimo se compromete em ser sincero num questionário de doze perguntas, respondendo apenas sim ou não. Geralmente as reuniões do grupo A.A são fechadas e o seu sistema terapêutico são os depoimentos dos membros e também uma troca de experiência, procurando um novo norte para sua vida minimizando aquela vida passada onde o vício os consumia tanto o corpo, quanto a alma e lógico como já foi relatado à desestruturação da família, pois o álcool como outra droga não afeta apenas o individuo que a consome, mas toda a família, principalmente quando envolvem os pais, como afirma Silveira:

“Em Alcoólicos Anônimos, todos são iguais perante a doença e sua intenção é tornar conhecido o seu programa de recuperação e nunca as pessoas delem fazem parte. Por esta razão é que existe o anonimato, que não deve ser entendida como uma norma disciplinar. O anonimato se caracteriza, em sua essência, como uma demonstração de humildade e até mesmo como uma demonstração de segurança da irmandade, evitando o aparecimento de seus membros através da imprensa falada, escrita e televisiva.” (SILVEIRA, Ajax C. Op. cit., p. 143.)

Durante a minha visita na sede do A.A, algumas pessoas pensavam que eu estava participando da reunião como um novo membro, mas o presidente do grupo esclareceu que se tratava de um convidado que gostaria de conhecer o grupo. No decorrer dos depoimentos algumas pessoas relatavam sobre a infeliz experiência que tiveram com o álcool e os fatos que marcaram esta parte negra de suas vidas como as irresponsabilidades, os desgostos que provocava na mulher e nos filhos, a perda do trabalho associado a sua identidade como cidadão, até procuraram nos hospitais da cidade de Ipu ajuda para conter seu dilema em relação ao álcool, porém no Ipu não temos clinicas especializadas em desintoxicação, apenas na capital do Estado, o que geralmente os hospitais de Ipu oferecem como de costume é glicose como uma espécie de cura de uma “embriaguez violenta” do dia anterior, enfim.

Nestes depoimentos e relatos, vejo o quanto o álcool é degenerativo e indissociável, pois existe uma exclusão social para aqueles que se deixam levar pela embriaguez incontrolável de cada dia. Numa entrevista, um dos membros do A.A relatou nos seguintes termos. “Se acaso não tivesse parado de beber talvez nem estivesse aqui para lhe contar a história, pois a cachaça estava acabando com a minha vida, meu emprego, minha condição social, mas com muita força de vontade consegui largar o vicio e com a ajuda de amigos procurei o A.A” (Claudio Roberto Clementino, 42 anos, músico. Entrevista realizada em Ipu-Ce, aos 15 de setembro de 2013.). Masur afirma no seu trabalho “O que é alcoolismo” a associação entre instituições hospitalares e a irmandade do A.A.

“[...] O pressuposto é que a quebra do habito alcoólico permitiria ao alcoólatra rever sua relação com o álcool. Alguns hospitais mais especializados fornecem durante a internação possibilidade de assistir a grupos A.A (que vem ao hospital), realizam os chamados “grupos terapêuticos” e prestam esclarecimentos, através das palestras, sobre os malefícios causados pelo álcool” (MASUR, Jandira. Op. cit., p. 49.)

Geralmente surge um preconceito social quanto ao usuário em potencial das bebidas alcoólicas, pois própria sociedade não quer absorver para si a responsabilidade de criar meios para combater o “mal do alcoolismo” e é claro as cidades interioranas como o Ipu não possuir tais mecanismos para diminuir o número de alcoólatras existentes, mesmo sabendo o usuário que é real o perigo que as bebidas alcoólicas representam para o corpo bem como para sua vida social.
Creio que seus comportamentos esdrúxulos possam ser o “pivô” para o afastamento de algumas pessoas perante a situação, pois em seu estado ébrio se tornam seres sem pudor, mentirosos, enraivecidos e vários predicados que os tornem repulsivos. Por estes pressupostos, convivem com a solidão e desespero e é intrigante neste contexto, não existir Politicas Publicas de Saúde de para sanar o problema, apenas quando tais indivíduos assumem que são alcoólatras e procuram grupos de cura e libertação no caso do A.A, pois acredito que as drogas oferecidas pelas Clinicas de Recuperação não possa ter um efeito desejado (ouvi relatos na própria na mídia de pessoas que supostamente fugiram destas Casas de Recuperação, caindo novamente no vício).
Alguns indivíduos, não suportando as dosagens clinicas, apelam para um analista ou um psiquiatra, coisa que também não surte quase nenhum efeito. Alguns possam fazer a seguinte indagação: você já se internou ou consultou este dois profissionais? Não, como afirmei, colhi estes relatos da mídia. Por este motivo coloquei o subitem, “Venha e Traga Mais Um”, que o grupo coloca como uma espécie de incentivo para que os membros da irmandade se prontifiquem de conscientizar aquelas pessoas que convivem com o alcoolismo, Em relação aos medicamentos e tratamento, afirma Lima:

“Com relação aos medicamentos, muitos já foram propostos, porem não há qualquer “remédio” mais especifico, até porque seria utópico esperar uma medicação para um problema multilateral, como é o alcoolismo. Contudo, diversos produtos, sobretudo, os antidepressivos, têm sido papel coadjuvante importante. Mais recentemente, a indústria farmacêutica lançou medicamentos mais específicos, cujos resultados iniciais foram animadores, sendo que os pacientes não deixaram de manter o acompanhamento fisioterapêutico, socioeducativo ou de frequentar o A.A.” (LIMA, José Mauro Braz de. Op. cit., p. 176.)

Momentaneamente, sobre a adesão de pessoas ao grupo A.A, percebo que existe certa recusa de alguns, pois os indivíduos que pratica o alcoolismo não se consideram alcoólatras e diz não precisar de auxilio da irmandade para tal “cura”, mas percebo que não precisa ser alcoólatra para frequentar o grupo, porque observei que pessoas mesmo não tendo contato com o álcool, frequentam a irmandade como forma de apoiar o trabalho, dando uma contribuição social contra o vício, porque tiveram parentes com graves problemas a respeito do consumo do álcool.
Estas pessoas têm a consciência de que o álcool é uma patologia grave e intensifica ainda mais os problemas, principalmente da classe menos abastarda, porque, embora no estado inebriante, estes problemas são esquecidos, mas quando retornam a si, novamente caem na bebedeira e torna-se como uma espécie de ciclo recorrente e supostamente o indivíduo já tem se tornado um alcoólatra em potencial e, dificilmente, encontrará uma saída para se livrar do vício, por isso há uma preocupação em pelo menos diminuir a porcentagem de pessoas que se envolve com o alcoolismo avassalador, como afirma Fishman:

“Outras razões profundas podem levar as pessoas ao uso de drogas como o álcool para anestesiar o “desconforto de existir”. Esses fatores são chamados existenciais por implicarem uma dimensão filosófica da condição humana que envolve o sentido (ou o não sentido) da existência. Segundo Sartre, a conscientização de que a existência não tem sentido gera sentimentos de profunda angustia e ansiedade de (a “náusea” existencial) que só podem ser superados se cada indivíduo eleger um sentindo da sua própria vida, consciente de que a união de esforços com seus semelhantes torna a existência mais fácil para todos” (FISHMAN, Ross. Op. cit., p. 53.)

Na realidade, a recuperação de um alcoólatra é uma missão difícil mesmo para as “terapias” do A.A, bem como as internações clinicas, pois há muito tempo, países economicamente ricos tem desenvolvido fatores clínicos para a recuperação dos “doentes” patrocinadas pelos governos desses países, Alemanha, França Estados Unidos, entre outros. No Brasil as clínicas especializadas na recuperação dos alcoólatras como citei, são quase que inexistentes tendo uma pequena parcela dessas clínicas nos grandes centros urbanos como as capitais de cada Estado e cidades que tem uma economia mais expressiva, porém a maioria delas é particular, enquanto as sustentadas pelo governo brasileiro são mínimas. Apenas internações onde os casos são de extrema gravidade, segundo Lima:

“Portanto, aqui no Brasil não se trata, essencialmente e fundamentalmente, de capacidade, de capacitação dos profissionais da área da saúde, uma vez que já possuem um nível elevado de competência técnica, mas sim de estratégias em nível de politicas publicas de saúde ao nosso contexto. Com custos relativamente mais baixos de por meio desta nova concepção de alcoologia, pois der--se-ia evoluir para o nível mais amplo e mais abrangente da saúde coletiva dentro do contexto de saúde pública. O próprio Sistema de Saúde Publica (SUS) poderia ser mais bem utilizado para fazer frente a este problema relevante e prevalente, que é o alcoolismo no Brasil.” (LIMA, José Mauro Braz de. Op. cit., p. 179.)

Mesmo assim, o processo de reabilitação é gradual e pode levar meses para que o ex- alcoólatra possa tomar a sua vida normal e condições para o convívio social novamente ou mesmo para o trabalho e minuciosos cuidados para que não haja reincidência a respeito do uso do álcool, pois as recaídas são quase que frequente em recuperados e as tentações existem, por isso a importância do grupo A.A, e nesse contexto, as palestras, as experiências e convivência, podem funcionar como terapia e conscientização do perigo de novamente se deparar com o “mal” do alcoolismo. O “delirium tremuns” como citado anteriormente é um distúrbio caracterizado daquelas pessoas que tiveram uma interrupção alcoólica e muitas delas são munidas de intensa agitação, desorientação e alucinações.

Por isso, muitos que têm a recaída falam para si mesmos, “só uma dose e nada mais”, não sabendo que sempre é conveniente e eficaz evitar o primeiro gole como recomenda o próprio A.A, para evitar qualquer recomeço no vício, como afirma Fishman. “Comprovou-se que a maioria dos alcoólatras que voltam a beber depois de um período de abstinência recai no vício. Geralmente começam a bebendo pequenas doses espaçadas ao longo da semana, mas quase sempre acaba sentindo incontrolável necessidade de aumentar as doses e a frequência da bebida.” (FISHMAN, Ross. Op. cit., p. 66)

Esta temática a respeito da recuperação do alcoólatra está centrada em diversos aspectos que envolvem a própria sociedade no sentido de conscientização e prevenção desta patologia tão degradante física e moral daqueles que convivem diariamente “dentro” do vício e instituições importantes como a Igreja Católica, bem como as protestantes se prestarem neste serviço social, pois é dever destas instituições religiosas denunciar o vício exacerbado e promover campanhas antialcoólicas. Pelo que colhi a Igreja Católica já deu a partida como já citei na pessoa do pároco Padre Raimundo Nonato Timbó que criou a “Campanha da Sobriedade”, em conjunto com o grupo A.A, abordando os males que o álcool causa ao ser humano e a destruição moral como a sua imagem de cidadão e é claro a fragmentação da instituição familiar.

Reconheço que a entrega incondicional do individuo ao álcool o torna escravo do mesmo e dilacera suas perspectivas futuras quanto a sua própria promoção social, porque são notórias para todos os usuários as consequências negativas do vício como a força física, cognitiva e sensorial e a moral espiritual, algo que é debatido com frequência no A.A. Por Isso resolvi escolher este tema para o meu TCC, no intuito de reafirmar que o alcoolismo é um problema social e muito grave e claro as mazelas por ele produzidas como já foi relatada no capitulo anterior. Naturalmente é difícil para alguém aceitar que é alcoolista e claro a sua abstinência, doravante não serem incluídos no rol dos que fazem uso continuo das bebidas, mas devemos crer que o potencialismo do vício geralmente começa nas pequenas dosagens e lógico, consequentemente, partindo para as dosagens mais expressivas.
Estas pessoas que se envolve com o alcoolismo usam continuamente o jargão, “beber para matar o bicho”, historicamente se diz que é sempre bom tomar dois tragos logo cedo para que o álcool matem os supostos vermes que atacarão o homem durante o dia, mas segundo a medicina, o uso contínuo do álcool nestas circunstâncias matará próprio homem antes dos vermes, pois a mesma acusa que existem profilaxias mais positivas no tratamento dos tais vermes, como afirma Silveira. “As bebidas alcoólicas são absorvidas antes de atingirem os vermes o intestino grosso, e diluídas no sangue. São prejudiciais ao homem que aos vermes. Quando se bebe para matar o bicho, é o bicho homem que esta sendo morto. Para os vermes há outros venenos eficazes que as bebidas alcoólicas”. (FISHMAN, Ross. Op. cit., p. 95.)

Concluindo, é preciso apresentar formas educacionais para a prevenção do alcoolismo, apresentando-a como uma droga letal e perigosa para quem a use inadequadamente e que comecemos isso na escola, pois sabemos que hoje, a adesão de jovens antes mesmo da maioridade é real. Outras alternativas são as campanhas efetivas dirigidas a sociedade pelo grupo A.A que tem sua eficiência nestas empreitadas, porque é sabido que tais campanhas são realizadas apenas durante o carnaval, feriados prolongados e também uma ação e fiscalização dos nos diversos estabelecimentos comercias que se abstêm de perguntar qual a idade do consumidor, sendo um facilitador para o vício desses jovens e para que não se torne um hábito e consequentemente se tornarem alcoólatras. Mas considerando os fatos recorrentes hoje na sociedade, que estes esclarecimentos sejam feitos de maneira simples sem se utilizar de diálogos de teor aterrorizador, mas um diálogo brando com especialista da área de saúde munido de conhecimentos básicos sobre a periculosidade da embriaguez associada ao alcoolismo.

Considerações finais
No desenvolvimento deste trabalho buscamos informações a respeito da embriaguez desde a sua introdução na humanidade, devo dizer que não foi bem complexo, mas um pouco da história, fazendo uma relação com a consumação na atualidade. Recorri ao trabalho de Henrique Carneiro e outros autores (as) como Maria Izilda de Matos Santos, Jandira Mansur, bem como Margareth Rago no que diz respeito aos prostíbulos existentes na cidade do Rio de Janeiro e asa entrevistas e informações prestadas por pessoas que tiveram problemas ou que frequentavam ambientes como o cabaré do Ipu.
Na análise da pesquisa podemos chegar a conclusão que o alcoolismo associada a embriaguez possa está vinculada a diversos aspectos como os rituais religiosos, desde a antiguidade, quanto a costumes e tradições arraigadas dentro de cada sociedade como celebrações por bodas, nascimento de um filho e até nos rituais fúnebres. Os comportamentos de indivíduos quanto a uma consumação exacerbada ou a busca de amenizar algum problema ou entrave que os atormentava, porém na pesquisa relatamos que o alcoolismo não resolve problemas, mas os agrava. O bar como reduto dos boêmios, seja estes estabelecimentos situados nas áreas abastadas com seus requintes ou mesmo na periferia, local onde se aglomerava a maior parte das pessoas que consumiam álcool em especial a cachaça devido o preço acessível para aqueles que eram desprovidos de uma renda mais expressiva. É claro que neste local surgiram pessoas que são lembradas constantemente por suas embriaguezes ou algo que eram marcas registradas destes atores sociais.
Os males que a embriaguez possa acarretar aos alcoolistas em potencial, a degeneração do caráter ou a expectativa de dias melhores, pois as políticas de saúde publica praticamente são inexistentes na nossa cidade e o número de pessoas vinculadas ao vício vem crescendo a cada década.
Emblematizamos também a consumação entre jovens especialmente das ultimas duas décadas ou na transição do século XX para o XXI, onde a adesão da juventude ao hábito de beber passou a ser comum dentro da sociedade ipuense, não obstante perceberem o perigo que o vício pode proporcionar. Por isso destacamos a mídia como uma espécie de influenciadora, pois na prática é plausível que este recurso possa ser uma “mola mestra” para o consumo, mas que estampa no final de cada propaganda vem o slogan “beba com moderação”.
Para finalizar detalhemos o trabalho do A.A., a irmandade responsável pela recuperação dos alcoólatras as atividades desenvolvidas pelo grupo ou mesmo pessoas que não tendo problemas com o vício, mas que de certa forma dão sua contribuição a irmandade.

FONTES ESCRITAS
Inquérito Policial Nº. 11 do dia 20 de maio de 1993, relatando o Duplo Homicídio do dia 19 de maio de 1993, localizado no arquivo do Fórum de Ipu, Dr. Francisco Pereira Pontes.
Processo nº: 800-95.2000.8.06.0095 art. 121§ 2º CPB. Sobre o crime de esquartejamento e ocultação de cadáver na cidade de Ipu em maio de 1994.
Inquérito policial nº 059/2013 (proc. 5802-89.2013) sobre embriaguez ao volante em via pública.
Inquérito policial nº 6576-22. 2013, sobre embriaguez ao volante em uma Rodovia Estadual na zona rural de Ipu.
FONTES ORAIS
Claudio Roberto Clementino, 42 anos, solteiro, músico. Entrevista realizada em Ipu-Ce, aos 15 de setembro de 2013.
Drª Francisca Gonçalina Martins Timbó, 48 anos, casada, diretora do CAPS, Ipu/ce, entrevista realizada no dia 3 de julho de 2014.
Francisco Gonçalves Martins, 90 anos, viúvo, comerciante. Entrevista realizada em Ipu-Ce, aos 10 de outubro de 2010.

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