2.4.15

Paraíso versus Inferno




Por Jairo Alves


A salvação na Idade Média estava ligada à idéia de viagem. O homem medieval se via como um viajante (homo viator), um caminhante entre dois mundos: a terra efêmera, lugar das tentações e o Paraíso, Reino de Deus e dos seres celestiais. Se o homem conseguisse manter o corpo puro conseguiria a salvação. Se falhasse, sua alma seria condenada, com castigos eternos no Inferno ou provisórios no Purgatório.

            Devido a este sentimento de culpa a população buscava a salvação através de uma viagem, como por exemplo, as peregrinações para atingir a Terra Santa (Jerusalém). Estes deslocamentos eram inseguros (estradas ruins, ameaças de assalto e de doenças) e vistos como uma forma de salvação, na medida em que o peregrino nunca sabia com certeza se iria voltar ou não. Outro meio de salvação era o isolamento do resto da sociedade em busca de uma vida dedicada a Deus, como é o caso de eremitas e monges. Os monges beneditinos escreveram Visões com o objetivo de apresentar os castigos e os deleites das almas no Além.


            Durante todo o período feudal a visita aos locais santos foi vista como um meio eficaz para se obter a salvação. Três foram as principais rotas: Santiago, Jerusalém e Roma.        Acreditava-se ser possível encontrar sinais materiais dos santos como pedaços do manto da Virgem, da Cruz de Cristo e outras relíquias. No caso da viagem a Santiago de Compostela, havia até mesmo grupos de peregrinos profissionais contratados para fazer o caminho em lugar de um morto ou enfermo para que este conseguisse alguma graça.
            O mundo é apresentado pela Igreja de forma dualista, cristãos versus não-cristãos, bem versus mal, Deus versus o Diabo.
            No final da Idade Média, mesmo com as Grandes Navegações, acreditava-se que o mar era coalhado de monstros e que o Atlântico era o Mar Tenebroso, onde as embarcações cairiam num imenso abismo.
            O Paraíso Terrestre cristão, portanto, possui elementos edênicos como árvores abundantes, fontes e sua localização é num jardim guardado por anjos. Muitas vezes está no meio de uma nascente de onde se separam os quatro rios citados no Gênesis.
            Diversos autores cristãos localizaram o Paraíso no Oriente e tentaram explicar sua localização. Para Capadócio 425 o rio Hifase, afluente do Ganges, é o rio Fison que aparece no Gênesis. No século VIII, João Damasceno localizou o Paraíso no Oriente, na região mais elevada da terra, apartado por um cume inatingível, situado além de um oceano inacessível aos humanos. Honório de Autun (século XII), seguindo versões anteriores como a de Agostinho, afirmava que o paraíso estava protegido por um muro de fogo que se erguia até o céu. Lado a lado com a idéia do Paraíso Terreal no Oriente, havia também a crença em locais habitados por seres monstruosos amplamente difundida nos bestiários medievais.
            No exemplum A Visão de Túndalo, a hierarquia na salvação é claramente representada através da divisão do Paraíso em três Muros, o de Ouro, o de Prata e o de Pedras preciosas, onde as almas permaneciam de acordo com seus méritos, sendo o Muro de Pedras Preciosas  reservado aos mais puros de todos, isto é, às virgens e aos santos.

O conceito cristão de Além   
            O Além cristão é  inicialmente um local é binário, dividido em Paraíso e Inferno. O Paraíso está no alto, é o lugar da transcendência, sede das entidades celestes e morada de Deus e o baixo, é o Inferno lugar de castigo dos condenados no Além, localizado embaixo da Terra. O baixo é dominado pelo Diabo. Em latim a palavra inferno, infernus, significa inferior. Os que para lá iam estavam condenados ao castigo eterno no fogo inextinguível, a torturas, ranger de dentes e odores fétidos aplicados pelo Senhor do Mal e por seus auxiliares.
            Já o Reino de Deus para os Cristãos era o Reino Celeste. Lá era onde se localiza o verdadeiro Paraíso. Para este local de felicidade iriam os justos e bem-aventurados nesta vida quando chegasse o fim dos tempos.
            O Paraíso é o local definitivo da Salvação. Deus é auxiliado por anciãos e por anjos e envia avisos à humanidade para que se arrependam dos pecados, pois no Juízo Final haverá a separação definitiva, com a felicidade suprema aos bons e a danação eterna aos maus.
            É interessante observar, portanto, que havia desde o início do Cristianismo uma idéia de sofrimento aos maus e de um Além intermediário. Durante a Baixa Idade Média, mais especificamente entre os séculos XII e XIII, a idéia de um espaço intermédio se racionalizou, relacionando-se a atitudes concretas a se tomar para diminuir o tempo de permanência ali. É o momento de construção do conceito de Purgatório no discurso eclesiástico como um lugar temporário de castigo.
            A partir do século XII, ocorre também uma valorização do indivíduo e do livre-arbítrio como fundamental para se atingir o Paraíso. A permanência no Purgatório a partir do período em questão era vista como um momento temporário no pagamento dos pecados veniais (isto é, aqueles que podiam ser perdoados por Deus), no qual o morto sofria algumas torturas físicas como a passagem simultânea do fogo ao gelado (LE GOFF, 1993: 19-21).
            A racionalização da idéia de castigo temporário no Purgatório possibilitou que novas categorias sociais, como a dos mercadores, que exerciam uma atividade contrária ao pensamento da Igreja (a utilização da usura), temendo por este motivo o seu destino na outra vida, pudessem obter a salvação através das missas e outras medidas empreendidas pelos vivos para abreviar o tempo no Purgatório. O trabalho do mercador era visto pela Igreja como não agradável aos olhos de Deus. Isto tinha origem na Bíblia. O Levítico afirma que  “se o teu irmão achar-se em dificuldade, não lhes darás empréstimo a juros, nem lhe darás alimento para receber usura” (Lv 25, 35-37).
            . Depois de percorrer todos os espaços do Além, a alma de Túndalo retorna ao corpo, ele conta o que viu, divide seus bens com os pobres e passa a adotar uma vida casta para ir brevemente para o Paraíso. Como é possível perceber na estrutura do exemplum, a narrativa tem um fim moralizante ao mostrar um homem comum, isto é Túndalo, um cavaleiro pertencente à nobreza e o seu percurso para chegar à salvação, buscando assim levar a conversão dos demais laicos. Além disso, ao finalizar a sua missão de visitar os três espaços do Outro Mundo e contar a sua experiência, o cavaleiro finaliza seu objetivo na terra e espera a morte  para, após a sua redenção, atingir e permanecer  no Paraíso.
            Podemos observar em todas as visões, o uso dos órgãos dos sentidos para aproximar o relato do interlocutor, que na maioria das vezes ouvia a narrativa ao invés de lê-la. Além do fato de a maioria da população medieval ser iletrada, a leitura era vista comumente como atividade fatigante, sendo a “literatura” conhecida por meio de recitadores e de pregadores religiosos. Ouvem-se terríveis gritos de sofrimento, ou cânticos maravilhosos, sente-se um fedor horrível ou aromas agradáveis de flores e árvores frutíferas. Além disso, temos a visão aterradora do inferno escuro e a visão agradável do paraíso envolta sempre num clima aprazível estabelecido num belo jardim, com objetos ricos como o ouro e as pedras preciosas.
             O tato também é muito importante nos relatos através das inúmeras torturas vivenciadas pelos pecadores, torturas essas que deformam e dilaceram os corpos, num sofrimento interminável, ao passo que, no Paraíso, as mãos tocam flores, frutos, pássaros, objetos preciosos e o corpo é coberto por vestes brancas. O paladar é igualmente utilizado para enfatizar a oposição Paraíso e Inferno, pois enquanto os seres do Paraíso bebem das águas cristalinas e comem os frutos abundantes, os do Inferno sentem o gosto do enxofre ou são privados de consumir alimentos, como na pintura de Fra Angelico, na qual um dos castigos consiste em impedir os condenados de comer iguarias saborosas postas na mesa à sua frente.

Fonte: Zierer, Adriana. Paraíso versus Inferno: a visão de Túndalo e a viagem medieval em busca da salvação da alma (séc. XII).  Mirabilia: Revista Eletrônica de História Antiga e Medieval, ISSN-e 1676-5818, Nº. 2, 2002 Disponivel: https://ddd.uab.cat/pub/mirabilia/mirabilia_a2002m12n2/mirabilia_a2002m12n2p150_2.pdf

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